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3 de maio - o "último" dia

Esse seria o último dia do Caike comigo na viagem, na madrugada ele pegaria o translado para o aeroporto e eu continuaria a dormir até a manhã do dia seguinte, continuando a viagem pela França. Por conta do futuro cansaço com as malas que seriam fechadas à noite e da já certa falta de sono, resolvemos que era melhor relaxar um pouco e dormir até mais tarde para descansar o máximo possível, sem perder tempo demais.
Dessa forma, acordamos razoavelmente tarde, e tomamos o café no hotel mesmo, com toda a calma do mundo. Pegamos o metrô e fomos visitar uma igreja que me recomendaram muitíssimo, a Madeleine. Essa construção, de arquitetura neoclássica, demorou para conseguir sair do papel. Inicialmente ela seria construída em meados do século XVIII, para substituir uma igreja consagrada à Madalena que, para variar, tinha se tornado pequena demais para a população da região. Porém, com o advento da revolução francesa, péssima época para construir igrejas, sua construção foi embargada, o terreno vendido, e muitas peças vendidas para artesãos. Mais tarde, Napoleão escolheu a localização para erigir um templo às forças armadas francesas, e escolheu o trabalho de um artista que se baseava nas antigas construções gregas e romanas, porém o templo não chegou a ser terminado por falta de dinheiro. Após a retomada do poder pelos monarquistas, a idéia de construir uma igreja voltou à tona, e depois de muitas idas e vindas com direito a inúmeras adaptações de projeto, em meados do século XIX, a Madeleine foi terminada e consagrada.


Hoje é uma das igrejas mais bonitas da cidade, bem mais baixa que as demais catedrais, pelo menos por fora, com muitas estátuas de santos por todo o lado de fora da igreja, alternando com as colunas neoclássicas. Tudo lotado de detalhes, de forma que não deixa nada a dever às construções góticas. Sua porta principal possui os sete pecados capitais escavados na madeira, e em cima há uma enorme cruz, que à noite se pode ver de uma grande distância por conta da iluminação vermelha.Por dentro a igreja também é neoclássica, lembrando muito o panteão, cheia de colunas e o teto repleto de afrescos. O altar principal é lindo de morrer, com uma lindíssima imagem da Ascenção de Madalena. Inclusive, em termos de estatuária, essa igreja é das mais bonitas que já vi, e também das mais controversas. Logo na entrada há uma coroação da Virgem que você jura de pé junto que é uma cena de casamento, com direito a alianças e tudo, e pelas longas madeixas de nossa senhora ela parece mais Madalena mesmo. Mas essa é outra discussão.
Até a música é diferente na Sainte Madeleine, o órgão aqui toca composições mais alegres e vivas. Posso dizer que foi uma das igrejas que mais me agradou em toda a viagem, com sua atmosfera calma sem ser austera, além de ser razoavelmente iluminada, com um destaque quase que desproporcional para o altar e, por consequência, a figura de Madalena. Aliás, a primeira visão desse altar é de tirar o fôlego, de tão bonita.De lá saímos rejuvenescidos pela beleza da igreja, para novamente pegar o metrô até o bairro da boemia de Paris e cenário do último filme francês de grande sucesso, Amélie Poulain: Montmartre.Descendo na estação, pegamos a primeira saída que vimos, e fiquei sabendo depois, a pior alternativa possível. Montmartre é um morro, o único da cidade, e o metrô continua sempre no mesmo nível. Resultado, pegamos uma escada para sair que não terminava nunca, e vimos vários turistas, e até mesmo parisienses, parando no meio do caminho para descansar, porque era muito difícil subir aquilo tudo de uma vez só, haja fôlego!
Chegando na superfície, pelo menos fomos recompensados pela vista da Place des Abesses, uma pracinha muito linda e bem calma, de cara para uma igreja com fachada art nouveau: Saint-Jean l'Evangéliste, também conhecida como Saint-Jean-de-Montmartre. Paramos para dar uma olhadinha nela, é claro. Essa construção, projetada por um discípulo do arquiteto responsável pela restauração da Notre-Dame, foi erguida durante a virada do século XIX para o XX, com muita influência art nouveau, é uma das raríssimas igrejas consideradas inovadoras datadas de antes da primeira guerra mundial. E ela é muito bonitinha mesmo, valendo uma visita quando se estiver passeando pelo bairro.
Nossa idéia era seguir um roteiro do meu guia de Paris, uma caminhada de 90 minutos por Montmartre (jamais acredite no tempo dessas caminhadas, sempre demora muito mais do que diz o guia). O problema é que a principal atração do quartier não estava no roteiro, a Sacré Coeur, e ainda queríamos procurar uma mala para o Caike poder voltar com tudo o que havíamos comprado até então, portanto resolvemos fazer um desvio nos nossos planos e ver primeiro o cartão postal do bairro, a igreja.
Se tínhamos achado a Torre Eiffel e o Trocadéro uma farofada, era simplesmente porque ainda não tínhamos visitado Montmartre. A entrada para parque onde fica a igreja é lotada de camelôs, e de pessoas tentando tirar dinheiro dos turistas tentando mostrar "truques". O negócio é fingir que nem tá vendo nada e passar batido, no máximo pedindo um "pardon" e um "non, merci". Passando da barreira humana, você chega no próximo obstáculo: as escadas. São muitas e parecem intransponíveis. Mas acredite, não é tão difícil quanto parece, e qualquer coisa você pode se divertir escolhendo qual delas pegar (tem 2 centrais e mais 2 laterais, sendo que as laterais têm sombra!) e mudando de escada nos platôs, de onde se tem uma bela vista da cidade, que vai melhorando conforme se sobe.
Nos platôs também tem mais camelô, só que um pouco menos concentrado (o espaço é maior), e dessa vez artistas de rua: estátuas vivas, palhaços, malabaristas, músicos... tem pra todo gosto. Ainda mais no final de semana, que foi quando fizemos nossa visita. E no gramado novamente se pode ver os parisienses no seu dia a dia de verão: todos esparramados na grama, lendo, ou batendo papo em rodinhas regadas a comida e a vinho... só que como aqui o terreno é inclinado, faz menos sucesso que o campo de marte e outros parques da cidade, como vim a descobrir mais tarde.
Fomos subindo as escadas debaixo de um sol maravilhosamente quente, do qual eu estava sentindo falta por conta dos dias anteriores, escolhendo as laterais por conta da sombra proporcionada pelas plantas. Fizemos uma parada estratégica no platô anterior à igreja, que tem belíssimas fontes de água (usadas como piscina pelas crianças), onde sentamos e descansamos apreciando a bela vista da cidade. Obviamente aproveitamos a ocasião para tirar um monte de fotos, inclusive muitas tentativas frustadas de tirar auto-retratos com Paris ao fundo (minha técnica de auto-retrato evoluiu muito durante a viagem). E quando nos demos por satisfeitos, fomos enfrentar a fila para entrar na Sacré Coeur.
Essa igreja na verdade é uma basílica, construída por conta de um decreto de 1873 para expiar os pecados dos communards (participantes da comuna de Paris) derrotados em 1871. Sua construção demorou quase 40 anos para ser terminada, e ela só foi consagrada depois da primeira guerra mundial. Em forma de cruz grega, suas cúpulas lembram muito as de uma mesquita por conta do formato, e ela é muito branca por fora por conta da pedra utilizada, o que a deixa lindíssima num dia claro de céu azul, como o que demos a sorte de pegar. Porém ela é cheia de restrições, mais do que a Notre-Dame! É proibido tirar fotos do interior da igreja, mesmo sem flash, com direito a seguranças expulsando os turistas que quebram a regra! O que, depois pensando bem, nem é tão terrível assim, visto que como a grande catedral, essa basílica é muito mais bonita por fora do que por dentro. Deve ser karma das igrejas famosas de Paris. A única coisa digna de nota no interior da Sacré Coeur é o mosaico da cúpula principal, que chama atenção pelo seu tamanho, não necessariamente pela sua beleza.
Quando conseguimos entrar estava começando uma missa. Resolvemos sentar e ver, eu estava na esperança de ouvir uma missa polifônica ou um canto gregoriano... mas ao invés disso, era só o padre falando mesmo, as pessoas se acotovelando para visitar a igreja e turistas sendo expulsos por tirar fotos. Para piorar do meu lado sentou um autêntico francês... com um cheiro que perfume nenhum conseguia disfarçar. Esperamos até o máximo da nossa paciência para ver se tinha algum tipo de canto, e quando percebemos que ia ser só aquilo mesmo, discretamente nos levantamos e fomos embora.Decretamos então que era hora de começarmos nosso walking tour. Fomos direto para uma das maiores ruas do quartier, a Boulevard de Rochechouart, onde, logo percebemos, é a rua da Alfândega de Paris. Era ali mesmo que acharíamos a mala por um preço em conta. Entramos numa loja e perguntamos pela marca que o Caike queria, Samsonite. Não tinha. Continuamos andando e achamos outra loja, que também não tinha, porém a vendedora foi muito simpática e nos indicou um lugar que ela sabia que teria. Lá fomos nós atrás da tal loja, que conseguimos achar! E tinha a maior cara de loja do Saara... só que os produtos pareciam verdadeiros. Fomos para o segundo andar, onde ficavam os modelos Samsonite, e fomos atendidos por um francês/argelino muito simpático que arranhava português. Acabamos por comprar 2 malas, uma para o Caike, bem parecida com a que eu estava levando na viagem, só que de melhor qualidade, e outra para mim, só que dessas tipo sacolão, que eu queria guardar dentro da minha mala, porque meus instintos diziam que eu iria precisar de uma. Guardamos uma dentro da outra e partimos para conhecer as ladeiras do bairro mais boêmio de Paris.
Pela nossa localização começamos o tour no sentido contrário e do meio do caminho, o que complicou um bocado na hora da gente achar as ruas para entrar, mas conseguimos nos virar e ainda antes do almoço vimos o prédio onde funcionou o famoso Chat Noir (o teatro de sombras), o cinema mais antigo de Paris (e provavelmente do mundo, que hoje abriga um teatro), o primeiro cabaré de cancã do quartier, e uma das casas onde viveu Van Gogh! Diga-se de passagem, o holandês me perseguiu pela Europa... mas não vou adiantar a viagem.
Fomos seguindo o roteiro até o seu início, a Place Pigalle, descrita como um lugar animadíssimo! É realmente bastante cheia... é uma praça bem grande, com um sem número de restaurantes e mais algumas casas de "show", leia-se strip tease. Como estávamos carregando a mala a tiracolo (na verdade era o Caike que carregava a mala no ombro), achamos que ali nós teríamos um boa diversidade de lugares para escolher onde almoçar. Entramos num bistrô cujo menu na porta parecia atraente e sentamos. Entregaram o menu oficial e começamos e escolher... logo percebi que eu não estava gostando muito daquelas opções... puro mal-humor de cansaço, mas precisava descontar em algo, né? O menu não tão interessante era a melhor vítima. Então levantamos e saímos.
Fomos dando a volta pela praça e decidimos tentar novamente num bistrô com um jeitão bem alternativo, parecendo uma mistura improvável de comida francesa com indiana, um leve toque árabe e uns pratos bem orientais (chineses mesmo). Pra completar a bagunça cultural e fazer uma boa demonstração do que é a globalização estava tocando Seu Jorge no fundo, o que foi ótimo... eu já estava com saudade da música brasileira.
Enfim, era ali mesmo que mataríamos a fome, pegamos o menu com o garçon e foi aí que aconteceu o único incidente esquisito com garçons na França: ele nos entregou o menu com a comida e a carta de vinhos, mas nós estávamos cansados e não queríamos beber nada alcoólico, então eu pedi a ele o menu com as outras bebidas. Inconformado que alguém pudesse almoçar bebendo algo que não fosse vinho, ele mal educadamente me perguntou "afinal o que vocês querem, comer ou beber?", no que eu tive que responder controlando o meu mau humor com unhas e dentes que iríamos comer sim, mas não beberíamos nada com álcool. Ele olhou estranho, mas trouxe o outro menu. Pedimos pratos de massa tipo wok (é a panela usada para fazer yaksoba), eu pedi um suco de laranja de verdade (laranjas prensadas em francês) e o Caike pediu um capucchino gelado. Depois que já estava tudo resolvido o garçon não incomodou mais, só nos perguntou se queríamos sobremesa e ouvindo a negativa, perguntou se queríamos a conta. No meio desse processo ele levou um esporro do gerente, porque não tinha servido a nossa mesa de pão e água, coisa que outro garçon acabou por fazer atirando as coisas na mesa.
Por conta da localização da praça e pela experiência com o caminho inverso do guia, decidimos que era melhor fazer o tour pela direção certa, então andamos novamente pela Boulevard de Rochechouart e subimos novamente as ladeiras que dão na Sacré Coeur, mas dessa vez para encontrar a Montmartre bucólica e histórica. É nessa parte do bairro que se encontram os antigos e atuais estúdios dos artistas, construídos do século XIX até o início do século XX. Um dos primeiros que vimos foi de Picasso, que infelizmente pegou fogo, mas como era um conjunto de ateliers, ainda tem a entrada intacta. Esse "conjunto artístico-habitacional" fica no alto de uma escada que também proporciona uma bela vista, ponto imperdível.
Dali fomos seguindo o nosso circuito e novamente encontramos a farofada na place du Tertre, onde existe uma imensidade de bares disputando cada centímetro disponível, e as pessoas disputam as moléculas de oxigênio. Ali perto fica o museu do Montmartre, que parece bem pequeno por fora, além de ter um aspecto mambembe, que combina com o quartier. Como não parecia tão interessante assim, passamos direto. Também passamos em frente a um museu com muita cara de improvisado do Salvador Dali, que parecia menor ainda e estava com uma fila enorme na porta. Passamos direto também.
Dali seguimos para baixo, numa rua onde, dizia o guia, tinha o belo vinhedo de Montmartre, que nem é belo nem cara de vinhedo tem. Mas as casas em volta e a vista valem o passeio. A partir desse ponto até os antigos moinhos do bairro (existem ainda 2 para contar a história da época que o morro era apenas plantações, pintadas por, adivinha, Van Gogh), é cheio de ateliers de artistas vivos (porque Renoir, Van Gogh e Picasso são muito legais mas não produzem nada há anos), e chegamos a ver um conhecido dos pps da internet! Aquele que faz rostos com desenhos de livros abertos, capas e lombadas... inclusive ele estava lá dentro, lendo um livro.
No mesmo caminho passamos pela casa onde viveu a cantora Dalida, nascida no Egito e de origem italiana, famosérrima no meio da música árabe (foi a precursora na Europa cantando em francês, árabe, espanhol, italiano, inglês...) e da chanson française, mas cuja vida foi cheia de altos e baixos, o que a levou a se jogar da janela de sua casa em Montmartre em 1987. Numa pequena praça bem perto dessa casa há um belíssimo busto em sua homenagem, onde, é claro, tirei uma foto.
A partir daí é só descida até a rua do Moulin Rouge, que só havíamos visto à noite e onde tiramos fotos dessa vez, que é entupida de sex shops e de casas de "show" provavelmente mais quentes do que o moinho vermelho. Assim, terminamos o nosso tour pela boemia e fomos providenciar o jantar. Como o bairro é mais residencial achamos facilmente uma padaria, onde compramos uma bisnaga enorme, e uma loja de queijos. Como eu adoro queijo mofado e o Caike gosta de Camembert e de Brie, achamos que dava pra arriscar alguns queijos mais franceses que fossem mais "frescos". Entramos e escolhemos uns 3 tipos de queijo bem branquinhos... porque tinha uns que simplesmente não davam, de tão pretos ou verdes ou azuis, e fomos para a nossa sessão mala.
Chegando no hotel, fiz uma aposta com o Caike, que eu obviamente ganhei, de que conseguiria colocar tudo na mala nova dele. Com tudo fechado analisamos o peso dela e percebemos que não ia dar certo, porque era óbvio que ela tinha mais do que os 20 quilos que a Ibéria permitia. Então, dividimos o peso na mala nova e na mochila de camping velha. Aí foi a minha vez de fazer mala, que ficou bem razoável, pois a idéia era fazer uma mochila pequena para dormir apenas um dia fora e eu deixaria o resto das coisas no hotel mesmo, para onde eu voltaria e ficaria num quarto single.
Descemos e pagamos a conta, porque não daria pra fazer isso às 5 horas da manhã, quando o Caike iria pro aeroporto. Depois fomos jantar! Abrimos os queijos... e o quarto se tornou insuportavelmente fedorento. O cheiro era tão forte que o Caike nem conseguiu experimenta-los, ficando a tarefa de acabar com eles pra mim. Fiz um enorme esforço e consegui comer um pouco menos da metade, junto com o vinho. Deixamos tudo pronto para a correria da despedida e fomos dormir o pouco que dava.

2 de maio - o dia que matou os pés

Nesse dia fizemos um esforço e acordamos ainda mais cedo que no dia anterior, pois a programação era extensa e começava mais cedo que o normal. Por conta da hora tomamos café da manhã no quarto mesmo, e no escuro, pois faltava luz em Paris. Na Europa eles também sofrem com esses problemas comuns, com a diferença de que eles são resolvidos mais rapidamente. Quando saímos já estava tudo de volta ao normal.
Pegamos o metrô morrendo de sono, mas eu estava ansiosa, a nossa primeira parada era o cemitério Père Lachaise, um lugar que eu morria de vontade de conhecer. Não é exatamente um ponto turístico comum, mas mesmo assim é muito famoso e muito frequentado, inclusive por parisienses, especialmente por namorados. Dá logo pra perceber que não é um cemitério comum, né? Apesar de eu gostar de visitar cemitérios comuns... costumam ser bonitos e muito calmos.
Para facilitar a vida, antes da viagem eu imprimi um mapa do cemitério com a localização de todos os túmulos que eu queria visitar, o que foi a maior mão na roda, porque não há mapas disponíveis na entrada. Mas uma das lojas de flores perto do portão principal vende um guia por uns 2 euros, o que é um absurdo.
Chegamos lá, pra variar, antes dele abrir. No meu guia o horário de abertura estava errado, dizendo que abria às 7h quando, na verdade, abria meia hora depois. Ficamos na porta principal, batendo papo e observando Paris acordar bem lentamente. Quando ouvimos o vigia chegando, com o característico barulho do molho de chaves. Ouvimos a fechadura sendo destrancada e a porta se abriu devagar, fazendo aquele barulho de madeira que dá nos nervos típico de filme de terror. E no fundo o som dos corvos... ficamos arrepiados e por um instante exitamos, entrávamos ou não? Respiramos fundo e fomos em frente.
A entrada principal dá para uma grande avenida com o monumento aos mortos no fim, que é muito bonito e comovente. Éramos os únicos andando por ali, e fomos invadidos por um sentimento estranho, uma espécie de respeito profundo por aqueles ali enterrados. Logo percebemos que não conseguiríamos tirar nenhuma foto, essa seria uma experiência que seria nossa, apenas nossa. Cada um tem que ir por si mesmo visitar aqueles que lhe tocaram a alma e descansam nesse lindo lugar.
Começamos pelo monumento do pintor Théodore Géricault, que é belíssimo, com uma placa de ferro que contem uma cópia do seu quadro mais famoso, "Le radeau de la méduse". Perto do seu túmulo tem mais um artista romântico, Frederic Chopin, com sua tomba coberta de flores trazidas pelos fãs, que até hoje são numerosos, e com uma linda estátua de uma mulher que sofre por sua perda com uma partitura no colo.
Dali fomos atrás de mais um músico, só que mais moderno, Jim Morrison. O rebelde que morreu de overdose em Paris atrai multidões para o seu túmulo, que de tanto ser vandalizado pelos fãs (rebeldes também, é claro) é cercado por uma grade com um cartaz de proibido passar. Mas isso não impede as pessoas de chegarem mais perto e cobrir a tumba de velas pretas e vermelhas, break on through to the other side!
Dali continuamos no mundo da música popular, só que francesa, visitando uma grande estrela da chanson française, Édith Piaf, de quem eu nunca realmente gostei da obra, mas me apaixonei pela pessoa vendo o filme Hino ao Amor. Seu túmulo é difícil de achar, porque traz o nome da família Gassion - Piaf (esse último nome é apenas artístico e significa pardal) e o nome real da artista Édith Giovanna Gassion. Ele é coberto de flores e placas de homenagem dos fãs e fotos, uma coisa muito emocionante de ver.
Dali fomos visitar um lugar histórico dentro do cemitério, o muro dos federados da comuna de Paris. Esse importante movimento, considerado por Marx a primeira insurreição proletária da história, pode ser resumido como a tomada do poder da cidade de Paris pelo povo. Esse movimento durou uns 2 meses, terminando na semana sangrenta, quando o governo invadiu Paris com a ajuda dos exércitos de outros países e matou quase todos aqueles que participaram da Comuna. Um dos últimos momentos da insurreição se passou no cemitério, onde se deu uma das últimas batalhas e a mais famosa execução sumária dos communards, que ocorreu durante a noite, onde 147 deles foram executados a tiros e enterrados numa vala comum ao pé do muro. Hoje há uma placa no local, em homenagem aos mortos daquela noite, e é um dos poucos lugares do cemitério sem túmulos. E até hoje o partido comunista e várias pessoas de esquerda deixam flores (cravos vermelhos na sua maioria) ao pé do muro e nas suas saliências. Para deixar ainda mais tocante, é nessa área do cemitério que se encontram os monumentos aos mortos da primeira e da segunda guerras mundiais, uma profusão de homenagens àqueles que morreram por suas convicções que deixa os olhos cheios de lágrimas.
Emocionados, continuamos nosso tour para o próximo túmulo que queríamos visitar: Oscar Wilde. Sua tumba é na verdade uma esfinge em pleno vôo, coberta de beijos pelas visitantes. Sua fama de dar sorte no amor (e na cama) leva as mulheres a beijarem o monumento e até o pênis da estátua foi furtado. A persistência feminina (eu acho, pode ser que tenha homens no meio também, né?) é tão grande que mesmo com uma placa pedindo que as pessoas não beijem o túmulo, que precisa ser sistematicamente limpo, ele está repleto de marcas de batom, que se intensificam em número conforme ai chegando perto dos órgãos sexuais. Uma loucura! Aproveito para avisar: não beijei o túmulo! Acho isso nojento!
Dali fomos visitar uma pessoa muito especial para mim, que foi cremada e por isso se encontra num carneiro no centro do cemitério, onde fica o crematório: Isadora Duncan. Minha idéia era dançar na frente do seu túmulo em homenagem à bailarina que quebrou as regras do balé clássico. Infelizmente havia um enterro acontecendo no crematório, e por conta das pessoas chorosas e vestidas de preto eu fiquei sem graça de sair dançando. De qualquer forma fiquei emocionada com essa visita, pois não imaginava que a tumba da Isadora fosse tão simples, e é uma das poucas sem flores, há apenas uma frase escrita com canivete na pedra sobre a dança. Os bailarinos se expressam de forma mais etérea mesmo. Foi o único lugar que eu tirei foto no cemitério, o que é engraçado, visto que existem poucos registros visuais dessa bailarina, e apesar de já existir cinema na sua época, não há filmes da sua dança.
No mesmo local estão as cinzas de mais uma artista, Maria Callas, a famosa cantora de ópera. Começamos a procurar pelo seu carneiro, e eu cheguei a me animar quando ouvi uma visitante cantando ali perto, mas não conseguimos achar. Procuramos em todos os cantos mas Maria Callas resolveu se esconder.
Acabamos por desistir dela e fomos atrás de homens das letras, Marcel Proust e Guillaume Apollinaire. Novamente tivemos dificuldade em encontrar os seus túmulos, mas pelo menos conseguimos achá-los. Eles ficam bem no meio das divisões, o que dificulta muito a localização, pois você tem que andar por entre as tumbas para encontrá-los, e elas são muito grudadas umas nas outras, para passar é muito complicado. Em algumas ocasiões é necessário pisar em algumas, o que dá uma sensação muito desagradável.
Dali fomos procurar mais um ídolo da chanson française, Îves Montand, que está enterrado junto ao grande amor de sua vida, Simone Signoret, sua primeira esposa. Seu túmulo também está cheio de flores e declarações dos seus fãs. Muito bonito.
Perto dele está outra celebridade, mas de natureza religiosa, Allan Kardec. Quando chegamos uma mulher estava prestando homenagem ao criador do espiritismo, colocando mais um vaso de flores no já lotado túmulo. Aliás, esse é um dos túmulos mais interessantes do cemitério, pois está coberto de frases famosas de Kardec sobre a morte, a vida e a reencarnação. Fiquei um tempo lendo todas elas, todas muito oportunas naquele lugar.
Nossa próxima parada foi tentar encontrar Sarah Bernhard, a famosa atriz. Mas depois de Isadora Duncan, não conseguimos mais achar nenhuma mulher, procuramos exaustivamente por ela sem sucesso. Entramos por diversos lugares e passamos por cima de diversos túmulos, mas nada adiantou.
Acabamos por desistir dela também e fomos para um novo desafio: encontrar os túmulos de Jean de la Fontaine (o escritor de fábulas) e de Molière! Pelo mapa, eles estavam enterrados juntos, e começamos nossa procura, tendo que novamente nos embrenhar pelo meio das tumbas. Chegamos a encontrar um túmulo com jeito muito antigo, com os nomes muito apagados na lápide, e um deles tinha o sobrenome de la Fontaine, mas não tinha Molière. Ficamos na dúvida, será que era aquele mesmo? Continuamos a busca e acabamos por encontrar o lugar certo, que é de honra, pois tem até um cercado envolta das tumbas, de formato bem clássico e até austero. Fiquei surpresa pela falta de flores e de homenagens... talvez eles sejam antigos demais pra isso. Mas quando saímos de lá um grupo de jovens de outro país chegou mais perto e nos perguntou se falávamos francês, eu disse que eu falava, e eles estavam a procura justamente do túmulo de Molière, o autor ainda tinha admiradores jovens. Feliz mostrei no meu mapa e expliquei como chegar lá, eles agradeceram e perguntaram onde poderiam conseguir um mapa também. Disse-lhes que havia trazido de casa, e eles ficaram meio decepcionados, pois andar naquele cemitério sem um guia é pedir pra se perder e se cansar mais do que o necessário, já que o solo é muito irregular e é preciso subir e descer ladeiras o tempo todo.
Deixamos os jovens seguirem o seu caminho e continuamos nosso tour, a próxima visita seria a Dominique Ingres, um dos pintores orientalistas que eu adoro. Seu túmulo não é artístico como o de Géricault, mas também é comovente. Perto dele está outro pintor renomadíssimo, Eugène Delacroix, cuja obra romântica é belíssima, e também criou muitas obras orientalistas importantes.
Já estávamos cansados, e agora só faltava uma pessoa para visitar, Georges Mélies, um dos primeiros cineastas da história, e o primeiro a utilizar efeitos especiais, quando o cinema ainda engatinhava e era mudo. Seu túmulo também carece de flores e não é exatamente fácil de encontrar, mas seu busto é um dos mais interessantes do cemitério, pois ele é retratado sorrindo.
Finalmente saímos do Père Lachaise, encantados com a nossa visita, que havia durado muito mais do que tínhamos programado. Já era quase hora do almoço e a programação do dia extensa. Pegamos uma avenida principal e andamos rápido, dando apenas para observar que o bairro onde estávamos era bem mais residencial que os que tínhamos conhecido até então, com muitas mulheres empurrando carrinhos de bebês (a maioria deles duplo, mas com crianças que nem pareciam irmãs dentro, o que me faz desconfiar de que se tratavam de babás), muitos idosos caminhando lentamente e fazendo compras numa das inúmeras lojas de comida, principalmente queijarias, padarias e pequenos comerciantes de frutas e legumes da região.
Seguindo a tal avenida terminamos por chegar na Place de la Bastille, onde um dia esteve a famosa prisão do regime monárquico, queimada pelas forças revolucionárias. Hoje há um grande monumento em memória aos cidadãos franceses que participaram dos "memoráveis dias 27, 28 e 29 de julho de 1830", com uma espécie de anjo dourado no topo. É uma imagem muito famosa da cidade. E aproveitamos para tirar as primeiras fotos de verdade do dia, com direito a pagação de mico típica de turista, daquelas que as pessoas param para olhar e segurar o riso.
Na praça estava acontecendo uma grande feira de arte também, mas tínhamos ainda muita coisa pra ver e resolvemos passar longe da confusão. Enquanto dávamos a volta necessária para continuar nosso caminho, passamos na frente de um bistrô com um jeitão muito simples, mas que tinha um menu completo por um preço muito tentador. Como já era meio dia, o lugar tinha acabado de abrir e por isso estava vazio, achamos que seria um bom momento para pararmos e almoçarmos logo de uma vez. Nossas pernas já estavam doloridas e ainda queríamos visitar dois museus, seria bom fazer uma parada estratégica.
Sentamos e pedimos nossos pratos, além de uma taça de vinho rosé para mim e uma cerveja para o Caike. A comida foi uma das mais simples que comi em toda a viagem, mas estava razoável, se comparada com o que se vê em restaurantes brasileiros estava muito acima da média.
Terminado o almoço, continuamos num passo apertado até o Institut du Monde Arabe, que já tínhamos passado em frente, mas agora iríamos visitar. É uma construção ultra-moderna, com painéis ajustáveis que deixam passar a exata quantidade de luz para iluminar o interior e por dentro muita coisa é de vidro, de forma que você consegue ver o hall de entrada muitos andares acima do solo. O Caike quase desistiu de ver as exposições quando perceber que teria que andar vendo a altura em que estava (as exposições ficam nos andares mais altos), mas se convenceu quando viu que só o corredor central tinha esse problema, era só evitar olhar para o centro enquanto usávamos as escadas.
Começamos nossa visita indo para o subsolo, onde tem uma loja de produtos árabes. Eu procurava lenços de moedas, cds e dvds. Tinha isso tudo, mas os lenços era tão caros quanto aqui, então não valiam a pena, os cds também, apenas alguns dvds de festivais de dança no Egito estavam com preços aceitáveis e eu acabei comprando 3. De lá subimos direto para a exposição permanente, que não precisamos pagar para ver por conta do sagrado museum pass, e que ocupa uns três ou quatro andares do instituto, valendo muito a pena ser visitada se você gosta de arte islâmica. Ela é organizada em ordem cronológica e por temas, e contem quase todo tipo de artefato, desde fragmentos de vasos e pratos de cerâmica, até tapetes e roupas, além de muitas iluminuras do Corão, é claro. Tudo belíssimo. Uma das partes mais interessantes é sobre os árabes e a ciência, que tem muitos astrolábios interessantíssimos, relógios e livros de matemática. Eles eram mesmo muito avançados até pouco depois das cruzadas, quando resolveram se fechar para o mundo.
Saindo da exposição eu carreguei o Caike para a livraria. Eu sabia que seria uma tentação louca, mas também não podia deixar de visitar e ver que preciosidades eu poderia encontrar. Resisti à tentação das sessões de contos e literatura e fui direto para o que eu sabia ser a maior raridade para uma bailarina de dança do ventre: a parte de livros sobre música árabe. Ali acabei comprando 3 livros sobre música, com estudos maravilhosos e que provavelmente jamais serão publicados no Brasil. Enquanto eu me perdia entre as letras, o Caike me puxou e disse: Eu acho que eu não devia fazer isso e provavelmente vou me arrepender, mas sei que você vai gostar, então vem cá. Eu o segui e ele me mostrou a sessão de cds. Era tão grande e tão bem classificada que meu queixo caiu. Ele virou novamente pra mim, "promete que vai ser rápida?", eu fiz que sim com a cabeça, deixei os livros com ele e freneticamente comecei a ver os títulos classificados em danse orientale. Todos pareciam ser maravilhosos e a minha vontade era de levar tudo pra casa, mas nenhum deles estava em promoção, e, portanto, estavam caríssimos. Foi o que me fez conseguir sair de lá sem estourar o cartão de crédito, pois acabei por só comprar os livros, repetindo como um mantra para mim mesma que eu já tinha comprado mais de 10 cds na fnac e na loja que visitamos ali perto dias antes e eles eram mais do que suficientes.
Finalmente conseguimos sair do instituto e nos dirigimos para o museu Cluny. No meio do caminho, ao percebermos que estávamos próximo da Notre Dame, e que estávamos dentro do horário, resolvemos dar uma volta um pouco maior e visitar a cripta da Notre Dame, que estava fechada quando tentamos visitar.
Chegando lá, mostramos nosso museum pass e entramos. A cripta na verdade é uma grande escavação que mostra as fundações dos primeiros prédios da île de la Cité, quando a cidade ainda se chamava Lutécia, e vai mostrando as diversas fases de edificação da ilha até a primeira igreja que depois foi substituída pela catedral. Uma exposição realmente impressionante, com as escavações bem iluminadas e identificadas, de forma que dá pra brincar com os luzes e ir acendendo cada pedaço de uma vez, facilitando a identificação das ruínas. Muito legal de visitar, mesmo.
Tomando conta para não perdermos a hora, saímos da cripta e fomos direto para o museu de arte medieval Cluny. Esse museu fica num prédio muito antigo, que contem no seu subsolo as ruínas das termas romanas de Lutécia, uma das mais bem conservadas da França, e cuja arquitetura é predominantemente gótica. O prédio, na verdade, era a abadia de Cluny e foi nacionalizada durante a revolução francesa, sendo dividido entre muitos proprietários particulares. No meio do século XIX, Alexandre du Sommerard se instala e lá coloca sua coleção de arte, que acaba sendo tomada pelo governo, que tomba a construção e abre o museu.
A entrada já chama muita atenção, com muitos arcos com detalhes góticos, uma torre com um relógio de sol e um velho poço. Dali se entra no museu, começando a exposição justamente pelas galerias do subsolo, repletas de placas de pedra esculpidas do período gallo-romano e esculturas vindas das diversas reformas da Catedral de Notre-Dame. Dali se segue para as salas das termas, que estão absurdamente bem conservadas, porém muita coisa estava em reforma, de modo que não pudemos ter uma melhor visão da grandiosidade da construção romana.
Dali se segue para a parte de estátuas da idade média, com muitos santos em madeira e pedra. Todos belíssimos. E assim você vai se preparando para ver um dos carros-chefe do museu, a coleção de 6 tapeçarias medievais conhecida como A Dama e o Unicórnio. É uma coleção lindíssima, com as cores ainda vivas, e que segundo um livro que eu li (Maria Madalena e o Santo Graal) é uma alegoria mostrando que Madalena é o Santo Graal.
Depois temos ainda mais estátuas de santos, predominantemente de Maria Madalena e Nossa Senhora, e então se chega na capela da abadia de Cluny. Essa capela de estilo gótico é linda de morrer, o teto é todo trabalhado em pedra, mais parecendo uma teia de aranha de tantos detalhes e nervuras. As paredes são apinhadas de arte religiosa do acervo do museu, dando a sensação de que se está numa capela mesmo e não num museu.
A sala seguinte já tem um tema quase inverso, mas que tem muito a ver com a religião católica e a sua história: as armas medievais. É o máximo ver todas aquelas armaduras, maças, lanças, espadas e arcos e flexas, muitos dos quais estão muito bem conservados.
Acabamos de ver a exposição quase na hora do museu fechar, e quando saímos demos de cara com uma loja que estávamos namorando há alguns dias, mas que estava sempre fechada quando passávamos em frente. Dessa vez ela estava aberta! Entramos e nos perdemos no paraíso nerd: uma loja repleta de figuras de Guerras nas Estrelas, mangás e desenhos animados, além de uma sessão enorme de quadrinhos e de mangás. Como não iríamos comprar nada, tiramos algumas fotos com alguns ítens interessantes. Até que o Caike viu uma caneca do Snoopy e não resistiu. Enquanto ele se segurava para não levar mais nada, eu achei um livro em inglês do Calvin e Haroldo, e ele novamente cedeu ao consumismo. Resolvemos então que era melhor parar de procurar coisas e ir embora.
Dali, carregados e felizes, fomos para a Torre Eiffel, dessa vez iríamos enfrentar a fila e subir, pois não podíamos deixar de visitar o cartão postal mais famoso de Paris. E a fila era grande mesmo. Dava voltas e voltas em si mesma. Uma coisa desanimadora para quem está cansado de andar o dia todo.
Enquanto o Caike foi para a fila eu fui para a lanchonete providenciar o nosso "jantar". E comemos de pé mesmo, enquanto observávamos os turistas de todo o mundo passando de um lado para o outro. Eu estava esgotada, e bem desanimada pelo cansaço, o Caike vendo o meu estado, disse que ficava na fila e que eu podia ficar sentada num dos bancos debaixo da torre para descansar, já que eu precisava estar em forma para animá-lo quando ele tivesse vertigem lá em cima. De muito bom grado aceitei a proposta, e fui mudando de banco conforme a fila andava para ficar mais perto possível dele.
Depois de mais de duas horas de espera chegou a nossa vez de comprar os ingressos. Compramos para ir até o terceiro e último andar, e dali fomos para a fila seguinte, a do elevador. A diferença é que ali já não há mais organização nenhuma, é só empurra empurra mesmo, bem do jeito que o francês gosta.
O elevador é original, da época da construção da torre, portanto ele é lerdo, absurdamente lerdo. Demora uns 15 minutos entre uma subida e outra, deixando todo o processo muito lento. Fomos direto para o segundo andar, onde é preciso trocar de elevador para chegar no terceiro, como já estava tarde fomos direto para a fila, que quase que dá a volta na torre, de forma que os turistas que não vão subir mais ficam pedindo para passar e tirar foto da beirada da varanda. O Caike, coitado, já estava nervoso ali, e ficou o tempo todo com a mão em alguma pilastra para dar um pouco de sensação de segurança. Já eu me animei com a vista da cidade que eu sonhava em visitar há 10 anos e nem sentia mais as pernas reclamando, apesar de ter abusado delas durante o dia inteiro.
O segundo andar da torre já é mais alto que o Arco do Triunfo e não possui grades, fora que o chão é levemente inclinado para fora, dando uma sensação meio estranha mesmo. E ainda tem o vento frio, já que era quase oito horas da noite e o sol iria se pôr em pouco tempo, deixando a temperatura mais baixa.
Depois de mais uns 30 minutos na fila entramos novamente no elevador, indo para o último andar, que pelo menos tem grades na varanda, e uma escada que dá para uma micro sala, praticamente no topo da torre, com uma vista magnífica da cidade. Nesse ponto é tão alto e venta tanto que a sala é toda fechada com vidro para proteger os visitantes. Ali, o Caike resolveu que a parede era o melhor lugar pra ficar, enquanto eu me expremia contra o vidro para tirar as melhores fotos possíveis do pôr do sol, um espetáculo belíssimo numa cidade fantástica que começava e se iluminar.
Quando já estava praticamente escuro e não dava mais para fotografar direito, cedi aos apelos do Caike para irmos embora. Pelo menos para descer tinha menos fila, pois já estava tarde e a maioria das pessoas já tinha ido embora.
Chegamos ao solo quando já era noite fechada, e fomos direto para o metrô, pois nossos pés estavam pedindo arrego e nós estávamos além da exaustão. Chegando no hotel eu ainda fui lavar roupa antes de dormir e depois capotei num sono tão pesado que nem sonhei. Mas também, quem precisa sonhar a noite quando passou o dia inteiro num deslumbre só?

30 de abril - Louvre




Por conta do cansaço do dia anterior, novamente tivemos problemas para acordar na hora. Levantamos mais tarde do que o planejado, tomamos café no hotel mesmo, pois atrasados ou não o Louvre só abre às 9h, dando tempo de comer com calma mesmo se tivéssemos no horário. E como estávamos com o museum pass, não nos sentíamos mais preocupados com filas, ainda mais depois da experiência em Versailles.
Alimentados e protegidos do frio, pegamos o metrô, até a estação que tem uma saída no Carroussel do Louvre, isto é, uma galeria bem embaixo do museu, com diversas lojas e um dos acesso ao museu, e com o famoso hall da pirâmide invertida. Na verdade, galeria não é uma palavra tão adequada, porque estamos falando de alguns andares de lojas e estacionamento, além do metrô. Tudo no subsolo.
De qualquer forma, chegamos no famoso hall, que ainda não estava estupidamente cheio, tiramos fotos na pirâmide invertida, e fomos correndo para o balcão de informações turísticas, pois queríamos confirmar onde ficava o ônibus para o parque Astérix, que visitaríamos no dia seguinte, e como comprar as passagens. Lembra que eu falei que na França tudo começa tarde? Pois é, o balcão ainda estava fechado.
Resolvemos deixar as informações dos tíquetes do parque para depois da visita ao museu e fomos tentar achar a localização do ônibus. Como não conseguimos achar o estacionamento subterrâneo (que ainda não sabíamos que existia), fomos tentar a sorte acima do nível do solo. Procuramos em vão, não tinha uma placa, um ponto de ônibus, nada que pudesse nos ajudar. Resolvemos que era melhor deixar tudo pra depois mesmo e fomos para a entrada mais próxima do museu.
Tinha fila. E ela era enorme e lotada de japoneses (ou chineses, não sei dizer).
Como não havia outra fila, ficamos preocupados, onde está o nosso privilégio do passe? Tinham me garantido que ele existia no Louvre! Decidi deixar o Caike no final da fila e fui pro início perguntar para o segurança como tudo funcionava. O funcionário, ao ver meu passe, disse pra passar na frente, mas não dava pra deixar o Caike sozinho e ficar esperando do lado de dentro, né? Voltei correndo e juntos nós mostramos o museum pass e exercemos nosso direito divino de furar fila.
Passando dessa entrada, que só consiste no sempre presente raio-x e no detector de metais, se entra num hall enorme, com inúmeros guichês de venda de ingressos e os acessos para os diversos pavilhões do museu. O Louvre é um museu muito interessante, você pode comprar diversos tipo de entrada, para cada pavilhão ou exposição ou grupos de pavilhões, fora as exposições temporárias, cujos ingressos são sempre vendidos à parte, não estando incluídos nem mesmo no museum pass.
Depois de conseguir um mapa com a descrição do que tinha em cada pavilhão, traçamos um plano de como percorreríamos o museu, numa espécie de maratona artístico-histórica de tirar o fôlego. Começamos então pelo pavilhão Suly, onde vimos primeiro o Louvre Medieval, que consiste de escavações no subsolo do museu que mostram as fundações do primeiro castelo construído ali e que deu origem ao prédio que hoje abriga o museu.

Considerações rápidas sobre o Louvre Medieval: para um primeiro castelo considerado primitivo, a construção antiga é gigantesca! E quem foi o louco que resolveu escavar nas fundações de uma construção tão antiga? Como é que as coisas não caem? Que loucura!

Essa parte da exposição não é exatamente imperdível, mas sobrando tempo vale a pena ver as bases do castelo medieval, porque é muito legal! Dali, resolvemos ignorar a exposição sobre a história do Louvre e fomos direto para o Egito, Mesopotâmia e em seguida esculturas gregas e italianas. Pra quem gosta de história antiga é imperdível. Você fica se perguntando o que sobrou no Egito para ser visto, porque a exposição é enorme! Tem tanta múmia que deixaria muito cemitério por aí com inveja! Fora as estátuas, estatuetas, vasos, jóias e inúmeros outros artefatos.
Pra mim foi uma sensação muito ambígua ver aquilo tudo ali, coisas de tantos lugares que na maioria das vezes se tem provas de que foram roubadas, sabe? É muito legal ver tudo junto numa exposição monstruosa como aquela, e todos sabem que durante muito tempo esses artefatos não foram valorizados nos seus países de origem e muitas vezes coisas preciosas foram destruídas. Mas eu já estive na Grécia e é doloroso entrar num museu num lugar como esse e ver apenas cópias com a inscrição "o original se encontra em escolha uma cidade européia", e não só nos museus! É de partir do o coração ver o Partenon sem uma, nem uma, estátua restante. Mas essa discussão não cabe aqui... são apenas pensamentos que me perseguiam enquanto eu visitava essa parte do Louvre.

Onde estávamos? Sim, depois do Egito e da Mesopotâmia, fomos ver um dos carros-chefe do museu, que fica numa sala só pra ela, no meio da exposição de esculturas gregas e italianas: a Vênus de Milo! Nunca imaginei que uma estátua fosse capaz de me emocionar tanto. É inexplicável! É uma estátua simples, nem é tão grande assim, e ainda está faltando pedaço! Mas ela exerce um poder nas pessoas fantástico! Você fica bobo olhando pra ela... tem que lembrar de fechar a boca e ver se escorreu alguma coisa.
Na verdade, toda a parte de estátuas gregas é de encher os olhos! Nossa, os gregos podiam gostar bem de uma sacanagem homossexual, mas como sabiam representar mulheres e o feminino... mas a cultura é mesmo algo que choca, uma das esculturas mais lindas e femininas que vimos, e que fez o Caike fazer o comentário que eu acabei de escrever aqui, era justamente de um hermafrodita. Uma mulher perfeita. Linda de morrer! Mas tinha "algo a mais". Simplesmente bizarro. Presente de grego mesmo.
Como estávamos no ritmo maratona, o negócio é ver o maior número possível de coisas, saímos do pavilhão Suly e fomos para o Denon! Ainda não era hora do almoço e estávamos no maior gás! Fomos encarar as pinturas francesas, italianas e espanholas!
Essa parte do museu não obedece uma ordem cronológica clara, nem tem exatamente temas ou escolas separadas, o que nesse caso é uma virtude, pois você pode comparar tudo! A sala das grandes pinturas é maravilhosa! Nela você tem reunidas as obras de grandes dimensões francesas, uma coisa de outro planeta! É difícil de imaginar um pintor realizando obras tão grandes... fora que são todas maravilhosas! Uma apreciação sem fim de beleza e técnica.
E bem pertinho, na parte de pinturas italianas tem DaVinci. É uma coisa fora de série. Não sei bem explicar, mas depois de ter visitado tantos museus e ter visto tantos pintores diferentes cheguei a conclusão de que alguns são simplesmente especiais. Não tem uma razão clara pra isso, não é a técnica que te deixa hipnotizado (apesar de DaVinci ser um mestre de uma técnica tal que te faz duvidar da possibilidade daquilo ser real), nem os temas... é algo mais, que não consigo encontrar palavras pra descrever... e vou te contar, esse italiano está nessa seleção especial numa posição de honra.
Ainda falando de DaVinci, também é nessa parte do museu que se encontra sua obra mais famosa: Monalisa. Não visitem o Louvre com uma idéia grandiosa desse quadro. Ele é pequenininho, e cercado por cordas de tudo que é lado, com uma multidão se acotovelando para ver o mais perto possível e tirar uma foto, que não pode ser com flash e como todos se empurram é impossível de ficar boa.



Observação sobre pinturas nos museus europeus: uma das coisas legais que acontece dentro dos museus na Europa é que eles liberam para estudantes de pintura levarem suas telas e materiais para dentro do museu, onde eles estudam as grandes obras, então, não é raro ver alguém (de qualquer idade) reproduzindo um quadro dentro das galerias... é algo muito interessante de observar!

Enfim, é uma parte realmente imperdível do museu, nem que seja pra passar correndo, porque se você for ficar mais de 2 minutos apreciando cada quadro você precisará de um ano inteiro para conhecer o Louvre.
Terminando os quadros principais, estávamos com uma fome monstruosa. Procuramos os cafés mais próximos, mas estava tudo lotadíssimo, e a fome nos deixava impacientes e inquietos. Acabamos saindo dos pavilhões e fomos para uma espécie de bandejão que tem no hall principal, com uma fila bem mais amigável e que é selfservice... mas o estilo selfservice internacional, você escolhe o que vai compor o seu prato e eles te servem na porção padrão.
Saciada a fome, pegamos novamente o mapa do museu e planejamos o que veríamos no segundo round. Fomos primeiro para a parte descrita como Renascença, só para descobrir que lá tem exposta uma coleção de objetos decorativos dessa época, e não de quadros como imaginávamos. Não que não seja bonito ou interessante, é muito, mas não era nossa prioridade. Então fomos correndo para a parte seguinte do nosso plano: os apartamentos de Napoleão III! A decoração dessa parte do Louvre foi toda modificada para o ego de Napoleão III, e lembra bastante o que se vê em Versailles, com a diferença de que tem uma exposição imperdível de jóias da nobreza francesa e dos Napoleões.
Dali fomos ver os quadros do norte europeu, porque os holandeses são fantásticos. Só pra descobrir que a coleção do Louvre de pinturas dessa região é fraca... pra ver as obras primas de países europeus você tem que visitar os museus desses países mesmo. Então fomos procurar as obras que eu queria ver da pintura francesa do século XIX: os orientalistas! Fiquei emocionadíssima... e só então me senti satisfeita! Para uma maratona como a nossa, tínhamos visto tudo o que achávamos imperdível, e terminamos nos sentindo moídos e oprimidos pelo excesso de informação. Minha cabeça girava.
Resolvemos que para um dia de visita era suficiente, no dia seguinte não poderíamos perder a hora de jeito nenhum por conta do ônibus que nos levaria para o parque Astérix, que tem hora marcada, e só sai uma vez por dia.
Para levantar o astral fomos para um Starbucks que tem no Carroussel e pedimos um bom chocolate quente para cada um. Mais felizes e aquecidos pela bebida dos deuses, fomos finalmente para o balcão de informações turísticas, e descobrimos que era impossível comprar com antecedência as passagens de ônibus. Porém a atendente nos explicou como achar o ponto dele e nos sugeriu que fizéssemos um teste naquele momento para não nos perdermos no dia seguinte. Achamos a idéia ótima, e lá fomos nós!
Claro que nos perdemos, e ficamos uma boa meia hora procurando o estacionamento certo. Chegando lá, um lugar enorme e feio como qualquer estacionamento, procuramos uma placa ou indicação do lugar de onde parte o tal ônibus e não vimos nada. Preocupados, começamos a pensar como faríamos no dia seguinte, será que estávamos mesmo no lugar certo? Resolvi que era melhor perguntar por ali perto, nas lojas próximas da saída pro estacionamento. Todos me garantiram que o ônibus saía dali mesmo "em torno das 8:30h". Bom, era o máximo que podíamos fazer.
Saímos do estacionamento e voltamos ao Carroussel, resolvemos dar um pulinho na Virgin, onde comprei mais um livro de dança do ventre. Estávamos cansados demais pra fazer mais coisas, então achamos que era melhor voltarmos ao hotel. Deixamos todo o peso no quarto e fomos jantar olhando o pôr do sol num restaurante muito simpático perto do hotel.
Olhei pro menu e vi um prato com um nome muito bonito, andouillette, e perguntei o que era: uma salsicha de entranhas de porco. Que salsicha não é? Apesar do aviso de ser uma comida forte resolvi arriscar. Pra quê? Comi o primeiro pedaço e achei ótimo, mas depois do segundo o gosto meio que impregnou a minha boca de tal forma que eu não conseguia mais comer aquilo. Era forte demais pra mim. Olhei suplicante pro Caike (que tinha pedido um pato lindo de morrer) "quer experimentar?". Ele gostou e elogiou, dizendo que era bem diferente. Olhei novamente, só que mais suplicante ainda, "quer trocar?". E ele salvou o meu estômago e o meu jantar. O pato dele estava maravilhoso! E ele conseguiu comer a maldita andouillette inteirinha, não sei como.
Terminado o jantar, o sol terminando de se pôr, já era quase 22h e tudo que precisávamos era dormir. Voltamos pro hotel, fui pra minha sessão, que precisava ser diária, de lavação de roupa e capotamos. No dia seguinte iríamos à Gália!






29 de abril - Versailles



Apesar dos nossos planos de acordar cedo e chegarmos a Versailles com o castelo abrindo, o cansaço era tanto que foi impossível despertar na hora marcada. Levantamos mais de uma hora depois do planejado e ainda assim com muita dificuldade. O dia estava feio, cinza e chuvoso. Pequei meu casaco/mochila, que era levemente impermeável, mas na dúvida pequei também minha capa de chuva tamanho infantil. Colocamos na mochila a garrafa de vinho que havíamos comprado no primeiro dia e os pães, queijos e salame que levaríamos para fazer um piquenique nos jardins do castelo.


Tomamos o café no hotel mesmo, já que estávamos atrasados mesmo e meia hora a mais não faria a menor diferença. Saímos apressados, pelo atraso e pelo frio, e corremos para o metrô. Já tínhamos verificado como chegar lá usando apenas o RER, o que é mais fácil do que ir até uma estação e pegar um trem. Compramos os bilhetes, que pela distância têm um preço diferenciado, e partimos. O RER pra Versailles é um pouco diferente, tem dois andares e uma boa parte do caminho é feita acima da superfície, de forma que do segundo andar a vista é ótima! Pena que não consegui aproveitar muito, fui dormindo quase o tempo todo, acordando apenas nas estações de parada para tentar não perder a hora de descer, o que foi ótimo porque pra mim a viagem durou apenas uns 15 minutos, enquanto o Caike me afirmou que havia durado 45.


Chegando na estação, quase que o trem todo desembarca, a quantidade de turistas, de japoneses e chineses (impossível diferenciá-los nessa situação) é assustadora! Parece um mar de gente. Você nem precisa procurar um mapa pra ver o caminho até o Château, é só seguir a multidão. Por conta da chuva, saquei minha capa da mochila e me preparei para a tempestade! Fomos andando numa chuva razoavelmente forte até a entrada do castelo quando a vimos.


A fila pra entrar.


Era a maior fila que eu já tinha visto, pelo menos numa chuva daquelas. Era um cenário desanimador.


Fomos nos informar sobre a possibilidade de darmos carteirada com o sagrado museum pass, e descobrimos que podíamos! Foi a melhor sensação do mundo! Passamos por aquele monte de gente enxarcada e fomos direto para a entrada, onde passamos novamente pelo detector de metais... e no raio-x viram que carregávamos uma garrafa. Garrafas de vidro eram proibidas. Era uma vez o nosso piquenique. Tristes, mas conformados, até porque com aquele tempo um piquenique não era a melhor idéia do mundo, deixamos a mochila do Caike no guarda-volume e fomos conhecer a famosa residência real da França.


O Château de Versailles foi a residência oficial dos reis Louis XIV, Louis XV e Louis XVI. Construído no século XVII, ele é uma obra muito representativa do estilo clássico e também do barroco, com a mitologia greco-romana sendo o grande objeto de suas pinturas e esculturas, além, é claro, dos reis, principalmente Louis XIV, o Rei-Sol. Os grandes apartamentos são realmente impressionantes, tudo com muitos detalhes, esculturas e afrescos cobrindo todos os tetos. Tudo de uma suntuosidade quase/muito criminosa, com muito ouro e prata, fora as imensas tapeçarias, espelhos e cristais. Em resumo: é uma loucura tão grande que vira um deleite para os olhos.


Logo quando se entra (há um caminho certinho para se percorrer) você se depara com a Capela Real, que é belíssima, com o chão todo de mármore de diversas tonalidades, detalhes em ouro nas paredes e um órgão lindíssimo.


Depois começa o tour pelos grandes apartamentos, todos nomeados com deuses greco-romanos, sem corredores e sem nenhum banheiro. Os quartos vão dando um no outro, todos com ante-câmaras, para a realeza poder saber que alguém está chegando com antecedência, é claro. É um mais suntuoso que o outro, pois o propósito era mesmo impressionar os visitantes e mostrar toda a riqueza de Sua Alteza. A idéia era de que quem tivesse o castelo mais rico e suntuoso era mais poderoso e, consequentemente, temível.


O pé direito é tão alto que chega a assustar, inclusive nas portas, pois o rei possui uma majestade tal que ultrapassa o seu corpo físico e precisa de espaço para passar. O engraçado é que essa regra não vale para o tamanho das camas... são todas pequenininhas... perfeitas para alguém com a minha altura!


Mas voltando ao tour, depois da capela, entra-se no Salão de Hércules, o maior do château, onde tem um afresco gigantesco no teto da Apoteose de Hércules, com ele entrando no Olimpo... é o sinal de que você agora vai entrar no domínio dos reis, digo, deuses... aí vem o Salão da Abundância, que é uma espécie de ante-sala para os apartamentos do rei.


Dali se segue para o Salão de Vênus, e depois para o Salão de Diana, que era usado como sala de jogos. Em seguida tem o Salão de Marte, onde ficava a guarda do rei, depois o Salão de Mercúrio, onde o corpo de Louis XIV foi velado quando de sua morte, e então o Salão de Apollo, o deus-sol, que é, obviamente se você pensar no título de Louis XIV, o salão do Trono. Só ficou faltando pintarem Apollo com o rosto do rei.


Ao lado fica o Salão de guerra, seguido da Galeria dos Espelhos, cujo nome vem da quantidade absurda de espelhos, são 350 no total e são os maiores espelhos possíveis de se fabricar na época, além de inúmeros lustres e candelabros enormes de cristal e, pra variar, muitos afrescos e ornamentos no teto. Claro que é o aposento mais famoso do Château.


Vem então os apartamentos da rainha, começando pelo salão da paz (guerra é coisa de macho, paz é coisa de mulherzinha, só pode ser essa a lógica, né?), seguido pelo aposento mesmo dela, com direito a uma cama diminuta mas muito chique, e, enfim, o grande gabinete, ou salão dos nobres ou do conselho.


Depois disso temos os salões modificados por Napoleão, que são quase tão egocêntricos quanto aqueles de Louis XIV, com pinturas que cobrem a parede inteira com a coroação de Napoleão, por exemplo.


Então, já cansados de ver tanto ouro e pinturas mitológicas, descemos as escadas para uma parte do château bem menos visitada, e, portanto, mais civilizada e fácil de apreciar: os apartamentos do delfim e da "delfina". Isto é, as crianças. E tivemos uma bela aula sobre como estragar uma criança e torná-la um Louis XIV da vida: é só criá-la num espaço como aquele. Receita testada e aprovada por gerações!


Mas fora isso, é uma parte muito interessante da visita, pois esses quartos são muito bem mobiliados, e neles você tem uma idéia bem melhor do como era a residência real, e de como era a educação dos reis: vendo as bibliotecas infantis e os objetos de estudo, como um globo enorme com direito a representação do relevo. Fantástico!


Depois desses apartamentos menores, saímos para o jardim. E eu quase desisti de continuar visitando o lugar. Estava tão frio, que nada me esquentava, e a chuva não parava de cair... era tanta água que até o gramado estava enlameado. Era difícil de andar sem escorregar e ventava sem parar. Para quem detesta frio, como eu, era um pesadelo. O Caike teve que me persuadir a continuar e visitarmos os jardins, com uma vaga promessa que ao atravessarmos aquilo tudo veríamos o petit e o grand Trianon. Como a curiosidade matou o gato, e eu realmente queria andar pelos lendários jardins de Versailles, me deixei convencer.


Meio tremendo, meio correndo, nos escondendo onde dava da água que não parava de cair, fomos olhando o jardim, que é mesmo debaixo de toda aquela chuva, uma verdadeira obra prima, com estátuas belíssimas, com as quais brincávamos de adivinhar a divindade grega que era representada. As árvores são cortadas de forma a fazer desenhos impossíveis, parece que escolheram a dedo onde plantar e depois fizeram estudos geométricos com elas. Uma beleza! E tem as fontes... que mesmo desligadas (até porque ninguém precisava de mais água) são lindas de morrer...


E foi morrendo de frio que paramos no meio do caminho para os Trianons para almoçar. Escolhemos um dos lugares mais quentes do restaurante (que era caríssimo por causa da localização). Eu estava enxarcada, meus sapatos estavam molhados até a alma, minha calça pingava a partir do meio das coxas (tive até que esvaziar os bolsos por causa disso) e eu tremia quando tirei a capa de chuva e me sentei da mesa. Nem os mapas escaparam, estavam em frangalhos e se desfaziam entre os dedos.


Aproveitamos o ambiente quentinho o máximo possível, meio que enrolando para comer. E deu certo! Quando terminamos estávamos secos! Com excessão dos sapatos, que estavam além da salvação.


Apesar revigorados pelo calor e pela comida, nos desanimamos quando vimos que a chuva continuava. E não estava com cara de que ia dar uma trégua nos próximos anos. Acabamos por desistir de ir até o Trianon e resolvemos voltar devagar, passando pelas partes dos jardins que ainda não tínhamos visto. A idéia também era poupar um pouco as nossas pernas, pois no dia seguinte tínhamos programado de ver o Louvre, o que exigiria muito delas.


Foi assim que voltamos até o château, onde eu fiquei horas na fila do banheiro enquanto o Caike procurava o lugar onde tinha deixado a mochila. A fila demorou tanto que deu tempo dele voltar e me esperar.


Pegamos novamente o RER e o metrô, onde eu aproveitei para dormir mais um pouquinho. Passamos na vendinha perto do hotel, onde o vendedor já até conhecia a gente, só faltando nos tratar pelo primeiro nome, compramos mais pão, queijo e presunto du pays (um tipo de presunto cru que eu a-m-e-i). Comemos tudo já na cama, depois de um bom banho quente. Aproveitei que já estava no clima e lavei as roupas dos dias anteriores na pia (para mais 30 dias de viagem, lavar roupa é obrigatório) e pendurei pelo quarto todo, incluindo as portas dos armários e do banheiro. A decoração ficou fantástica rsrsrs


E finalmente pudemos dormir ouvindo a chuva cair do lado de fora da janela.




Dia 28 de abril - o dia das surpresas

Por conta do dia anterior acordamos mais tarde do que prevíamos, às 7:30h. Resolvemos que o negócio era mesmo tomar café no hotel, não só por causa da inutilidade de sair muito cedo, mas também pelo preço, já que o lugar mais barato para comer nas redondezas era mesmo o Hôtel du Brésil. O "petit déjouner" era bem razoável: pão, croissant gigante, suco de laranja, uma bebida quente escolhida entre café, chocolate quente, café com leite e chá, manteiga, geléia e mel. Dava pra forrar bem o estômago, e fora o pão duro, tudo estava bem gostoso. Especialmente o chocolate quente. Na europa o conceito de chocolate quente é muito diferente daqui... o pó que eles usam para misturar ao leite normalmente é chocolate com mais de 30% de cacao, bem mais forte do que o pó de chocolate em caixa que vende no Brasil e que a gente só usa pra fazer doces adicionando muito açúcar. São iguarias, especialmente o que eu vi na Holanda... mas não vou me adiantar na história.
Terminado o café, como estávamos do lado do Panthéon, resolvemos começar por ele mesmo. Pra variar demos de cara com a porta, ele só abria a partir das 10h. Decidimos então começar pelas igrejas das redondezas, isto é, do quartier latin.
Fomos primeiro a Eglise de Saint-Sulpice, aquela mesma que aparece no romance O Código Da Vinci por conta da linha rosa e de um assassinato de uma freira (no romance! Nenhuma freira foi assassinada lá em episódio famoso algum, apesar de que tenho certeza de que essas coisas deviam acontecer com alguma frequência na idade média ou mesmo durante a revolução ou a comuna).
De qualquer forma, a igreja é estonteante... de uma altura formidável, ela é muito iluminada por dentro por conta dos enormes vitrais, o que dá um aspecto belíssimo em contato com suas pedras enegrecidas pelo tempo... fora a sua estatuária! Era a primeira igreja que víamos com uma estatuária tão rica e variada. Sua construção, pelo menos do prédio atual, contem elementos do século XII até o século XVII quando ela foi aumentada, num trabalho que durou 130 anos para ser "terminado" (a fachada e a torre sul permaneceram inacabadas) e incluem elementos dos estilos clássico e jesuíta. Mas é aquela coisa que sempre se repete na Europa, esse é o prédio atual, existem estudos e pesquisas arqueológicas que comprovam que antes dessa construção havia uma capela e um cemitério no mesmo lugar que datam de um período bem anterior. Coisa de europeu mesmo, que resolve fazer uma obra pra melhorar o sistema de esgoto e descobre uma ruína romana.
Além disso tudo, a igreja possui um famoso gnômon que marca a data do equinócio de março! O tal que é mencionado como marcando a linha rosa no romance de Dan Brown, e por causa dele ao lado do obelisco do gnômon tem um grande quadro explicativo, colocado ali pela paróquia, sobre como o Código da Vinci deve ser evitado porque gera dúvidas quanto aos dogmas da igreja e quanto a fé, que isso é prejudicial e desnecessário porque a igreja nunca teve o objetivo de enganar ou esconder nada de ninguém e mais um monte de blablablá. Uma leitura muito curiosa e, sinceramente, hilária!
Como se não fosse suficiente, tem o órgão, um dos maiores da Europa, que data do século XVIII. E aí entra outro detalhe especial: em muitas igrejas o órgão é tocado durante várias horas do dia como forma de pedir doações para sua manutenção. Eu nunca tinha escutado um órgão daquele tamanho funcionando, é algo realmente impressionante, cria uma atmosfera fantástica, a sensação é mesmo que a música envolve todo o seu corpo e ocupa todo o espaço da igreja. Deixa a visita muito mais emocionante.
Daí fomos para o próxima igreja do dia: Saint-Germain-de-Prés, que tínhamos tentado em vão ver no dia anterior. Essa igreja é considerada a mais antiga de Paris, sua primeira versão, merovíngea, data do século VI, e o prédio atual é do século XI misturando diversos estilos: colunas ainda do século VI, arcos de estilo romano e abóbadas góticas. Ela foi quase totalmente destruída durante a revolução: apenas uma das suas 3 torres originais permanece de pé e ainda tem um daqueles episódios de massacre de todos os religiosos por uma multidão enfurecida mais comuns do que se imagina nesse período.
Apesar da história tumultuada, a igreja é de uma beleza singular. Muito escura e sombria por conta dos seus arcos romanos e vitrais consequentemente diminutos, ela tem um clima muito diferente, sua estatuária é visivelmente mais antiga, e seus afrescos ainda estão razoavelmente conservados, escurecendo ainda mais o ambiente. Algumas capelas são tão antigas que é possível ver várias mudanças feitas ao longo dos anos, como portas e janelas que deixaram de existir, nichos abandonados e um certo ar de ruína arqueológica. Se você gosta de simbologia e entende um mínimo do assunto, visitar as igrejas na Europa é um prato cheio de coisas interessantes e aparentemente fora do lugar (pra quem conhece muito não deve parecer tão deslocado, como meus conhecimentos são muito limitados pra mim é tudo um samba do crioulo doido). Um dos vitrais dessa igreja, por exemplo, possui um símbolo maçônico muito conhecido: uma pirâmide com raios de sol saindo por trás (que também está presente na nota de um dólar), algo realmente inesperado.
Descobrimos também, para minha alegria como profissional de ciências exatas, que Descartes está enterrado nessa igreja com direito a epitáfio e tudo: "O primeiro que, depois do renascimento das Letras na Europa, reivindicou e assegurou os direitos da razão humana" numa tradução meio porca e incompleta, mas ainda assim válida.
Depois, para poupar tempo, porque a programação era bastante extensa, pegamos o metrô e fomos direto para o coração da cidade, a Île de la Cité! Que tem um dos cartões postais mais famosos do mundo: a Notre Dame.
Mas antes de ir para a igreja considerada uma das obras primas da arte religiosa, fomos a uma igrejinha de proporções bem mais modestas, mas de importância quase inestimável para a arquitetura gótica: a Sainte Chapelle.
Quando chegamos tinha uma fila monstruosa do lado de fora pra entrar. Olhamos desanimados... mas lembramos que nosso Museum Pass incluía a capela! Tentamos dar aquela carteirada mas fomos barrados: ali, por ser prédio do governo (é o atual palácio da justiça) não tinha distinção entre os turistas, a fila era única. Não tinha remédio, entramos na fila e ficamos esperando, ainda bem que tínhamos vindo de metrô trocamos a caminhada pela espera. Ela até andava, mas muito devagar, comecei a ficar preocupada, será que conseguiríamos ver os famosos vitrais com a capela tão lotada do jeito que aparentava estar?
Depois de um pouco mais de meia hora chegou a nossa vez de entrar, e descobrimos a razão daquela confusão: mais detectores de metal. Eu passei fácil, mas o Caike trazia na mochila um conjunto de talheres de acampamento, daqueles sem fio nenhum de colher, faca e garfo que se encaixam uns nos outros. Não ter fio não era importante. Barraram o conjunto. O Caike teve que assinar um termo que descrevia o material e deixá-lo ali na portaria para buscar na saída.
Finalmente entramos no prédio, que na verdade é um grande complexo, com pátios internos e tudo. Passamos por um desses pátios, seguindo as placas indicativas da capela e a procura de um banheiro, que era unisex e a porta não trancava. Uma delícia. Como éramos dois, um vigiou a porta pro outro e dali fomos para a capela, que quase não se vê do lado de fora. É uma construção bem baixinha, com dois andares. Na verdade são duas capelas, construídas a mando de São Luís para abrigar a Santa Coroa, uma relíquia da coroa de espinhos e mais algumas outras relíquias. A capela de baixo tem o teto bastante rebaixado e é toda decorada de afrescos de fundo azul profundo com milhares de flores de lis, símbolo da realeza francesa. Essa capela de uso para as pessoas comuns (que não fossem da corte) era dedicada a Virgem e não possuía nenhuma passagem que desse para o segundo andar, exclusivo para a realeza, hoje tem uma lojinha de souvenirs que começa a te mostrar como os franceses sobrevivem do turismo: tem de tudo que você puder imaginar, livros sobre todos os temas medievais e religiosos (apenas cristãos, claro), miniaturas medievais, tapetes, almofadas e toalhas de mesa imitando as famosas tapeçarias de época e muitas inutilidades que você fica morrendo de vontade de comprar.
Dali, você sobe para a capela de cima por uma escada em espiral bem estreita, que apesar de moderna se encaixa tão bem com o lugar que nem dá pra perceber que ela é posterior à construção. Quando se chega na capela superior, você simplesmente perde o ar. Não tem paredes! Apenas vitrais! Compridos e finos, absurdamente coloridos e estonteantes. Todos os detalhes em pedra são pintados, tudo tem um detalhe diferente pra você ver, é uma loucura tão grande que você não sabe pra que lado olhar. E tem os vitais coloridíssimos, com predominância de vermelho e azul, que contem círculos com cenas religiosas, organizadas de forma a seguir os livros da bíblia e também de acordo com o lugar que os personagens reais ficavam dentro da capela durante os ofícios.
Pra melhorar a situação, colocaram pendendo do teto de quase 14 metros de altura diversos candelabros, que quando acesos (hoje por lâmpadas imitando chamas de vela) deixam o ambiente ainda mais impressionante pois ressaltam os dourados das pedras e das paredes. Você sai de lá meio tonto de tão bonito que é.
E foi assim, com dificuldade de andar em linha reta e sem conseguir prestar atenção direito nas coisas e saímos de lá e fomos para A igreja de Paris: Notre Dame.
A catedral te enfeitiça no momento que você a vê: o número de detalhes na sua fachada oeste (a mais conhecida, que tem o portão principal) é tão impressionante, e tudo está tão conservado que é difícil você se lembrar de entrar na igreja. Mas nem sempre foi assim, construída no estilo gótico durante os séculos XII e XIII, e sendo aperfeiçoada até metade do século XIV, ela quase foi demolida em diversas ocasiões: primeiro, no século XVIII, a desculpa era que o estilo gótico era considerado bárbaro e sombrio demais, porém não havia dinheiro para uma nova catedral (os nobres estavam ocupados construindo seus suntuosos chatêaux e não queriam gastar com a igreja), então os franceses se contentaram em mudar toda a estatuária interna e fazer pequenas demolições também internas para tentar modernizar a catedral, além disso destruíram grande parte dos vitrais e substituíram por vidros brancos a fim de aumentar a luminosidade, e também destruíram parte do tímpano central da entrada principal para facilitar a passagem das procissões. Depois, durante a revolução muitas estátuas foram decapitadas por serem julgadas como representações dos reis da França (na verdade representavam os reis de Judá, mas os revolucionários também não são conhecidos por seu profundo conhecimento religioso, não é mesmo?), e muitas outras mais acabaram sendo destruídas também para se utilizar as pedras.
Após a revolução, fizeram pequenas obras de urgência no edifício apenas para poder sacrar Napoleão como imperador. Mas o estado geral era tão lastimável que logo logo já estavam novamente pensando em destruir tudo, pois não havia razão para manter aqueles escombros de pé. Foi nessa época que Victor Hugo escreveu o célebre romance "Notre Dame de Paris" (O Corcunda de Notre Dame), o que fez reviver o gosto dos parisienses pela construção e em pouco tempo surgiu uma campanha pela sua restauração. Após muitas confusões com o dinheiro e os valores para tal empreitada, a catedral foi restaurada, porém com muitas modificações, já que havia poucos registros intactos dos seus detalhes originais, e outras catedrais acabaram sendo usadas como inspiração pelos restauradores.
De qualquer forma, a construção impressiona muitíssimo por fora, e é difícil se concentrar e entrar na fila para adentrar a Catedral. Uma vez do lado de dentro, o seu tamanho é realmente fora de série, você fica imaginando como devia ser estarrecedor estar ali na idade média, devia ser mesmo considerada a morada de deus, pois homem nenhum poderia ser capaz de construir tal coisa. Os vitrais restaurados das rosáceas são realmente muito bonitos e dão um ar todo especial. Mas fora isso, a catedral não me tocou tanto. Não sei se foi o excesso de gente (mal dá pra andar e não é possível observar direito as paredes e as capelas), a impressão forte que as outras igrejas que tínhamos visto até aqui haviam deixado, ou simplesmente cansaço e fome, ou mesmo um pouco disso tudo. Só sei que saí da catedral meio decepcionada, com o exterior tão fantástico o interior deixou muito a desejar.
Por conta disso ficamos pouco tempo dentro da igreja e resolvemos passear do lado de fora mesmo, tomando bastante tempo para ver e fotografar seus arcos botantes e gárgulas. Em volta (na verdade ao lado direito da fachada) e atrás da catedral há um jardim muito agradável e a observação fica muito mais interessante, e calma, diga-se de passagem, porque a maioria dos turistas olha apenas a fachada e a parte interna, deixando os jardins bem mais civilizados. Tentamos também visitar a cripta, que tem um museu com fundações antigas, ainda de Lutécia (nome romano de Paris para os desavisados ou aqueles que não leram Asterix), mas ela estava fechada naquele dia, e eu tentei convencer o Caike a subir a torre, mas a fila e o medo de altura dele foram mais fortes que os meus argumentos.
Dessa forma, depois de saciados, atravessamos a ponte que liga a Île de la Cité à Île de Saint Louis a procura do famoso sorvete Bertillon. O toldo verde escuro é facílimo de achar e ao olhar os sabores dos sorvetes percebemos que estávamos mesmo era com fome, e acabamos trocando os sorvetes pelo menu completo com direito a vista para a catedral. Foi uma das melhores refeições que fiz na França, pedimos de entrada scargots ao pesto e uma espécie de sopa de legumes (d-i-v-i-n-a), de prato principal pedimos (nós dois, então eram dois pratos) fígado de vitela ao porto, e de sobremesa o Caike escolheu uma salada de fruta que eu juro que é a mais bonita que eu já vi e eu optei por um bolo de chocolate com menta. Tudo regado a cerveja Leffe para ele e vinho quente pra mim. Uma maravilha gastronômica.
Restaurados pela divina culinária francesa, fomos dar uma volta pela ilha e demos de cara na porta da igreja Saint Louis (não seria a única vez), dali pegamos a ponte que leva para perto do instituto árabe e resolvemos fazer um caminho alternativo. Estávamos mesmo inspirados, pois esse caminho se revelou fantástico.
Primeiro, logo depois de passarmos em frente ao instituto, o que já é muito interessante de ver com sua arquitetura moderna, encontramos diversas livrarias maravilhosas especializadas em cultura árabe, com a maior parte dos títulos escritos em árabe mesmo. O Caike teve a paciência de entrar comigo em todas elas pra procurar livros sobre dança do ventre... o que foi muito irônico, pois em todas elas o único livro disponível era de uma americana traduzido para o francês. Quem diria? Mas uma dessas livrarias vendia também cds! Originais e a preço de banana. Eles eram tão originais que eu precisei da ajuda do vendedor para escolher, afinal eu ainda não leio árabe. O rapaz foi muitíssimo atencioso, separou pra mim os títulos que davam pra dançar e aqueles da Oum Kalthoum, e ainda me disse qual cd dela tinha a música que eu estava procurando. Saí de lá muito mais carregada do que eu estava planejando, mas feliz (eu ainda não sabia o quão carregada eu estaria no final daquela semana).
Continuamos nosso caminho improvisado e acabamos por passar por um resquício de um muro do século XII, que era uma das muralhas que protegiam a cidade medieval, a "enceite Philippe Auguste", coisa que eu nem sabia que existia ainda em Paris, e que fica bem no meio de duas casas, fazendo parte de uma das paredes de uma delas.
Impressionados com esse tesouro arqueológico encravado no meio da rua, continuamos a andar e passamos em frente a uma ex-igreja, a antiga Eglise Sainte Genoviève, que hoje é um liceu, bom, na verdade, o que sobrou da igreja foi usado para construir a escola, mas a localização é a mesma. Do lado fica a Eglise Saint Étienne du Mont. Resolvemos entrar. E descobrimos um tesouro!
Originária da antiga igreja de Santa Genoveva (padroeira de Paris), a igreja foi construída para aumentar a capacidade de receber fiéis da primeira, porém foi dedicada a Saint Étienne porque a catedral da cidade já não era mais dedicada a esse santo. Sua construção começou no século XV e ela só foi terminada em meados do século XVII. Por conta disso ela mistura diversos estilos.
Ela é extremamente iluminada por dentro, contando com a ajuda da cor das pedras utilizadas que são branquíssimas, possui duas escadas em espiral mais ou menos na altura do transepto que são de uma beleza ímpar, e ainda guarda dentro dela os túmulos de Pascal e Racine. Como se não fosse suficiente, é também dentro dela que está depositada a urna funerária da Santa Genoveva, que é uma obra de arte belíssima.
Sua impressão é tão forte em mim que tenho até dificuldade de escrever sobre ela. Tem que estar lá pra sentir isso, não dá pra descrever em palavras.
Dali, extasiados pela surpresa, fomos ao Panteão. Estava chovendo, e por isso corremos para não nos molharmos e entramos meio aos trancos e barrancos na construção que era para ser a nova igreja de Santa Genoveva, mas acabou virando um monumento republicano para servir de homenagem a grandes figuras da história da França.
O Panteão é uma parada obrigatória em Paris, não só por sua importância arquitetônica e histórica, mas principalmente por sua beleza. O lugar é lindo de morrer, todas as paredes possuem afrescos da vida de Joana D'Arc ou de Santa Genoveva, incluindo pinturas famosas da "pucelle d'Orléans", não tem um pedacinho do teto que também não seja pintado, e por sua construção ser do século XVIII ela é muito iluminada. Pra quem gosta de ciência é nele também que se encontra um dos experimentos mais famosos do mundo: o pêndulo de Foucault. Enfim, é um prato cheio pra turista algum botar defeito. Dá pra ficar horas observando as paredes e os tetos do lugar, mas já estávamos cansados e fomos bem mais modestos, ficamos só uns 45 minutos. Depois fomos a cripta.
Ah, sim, por ser originalmente uma igreja, tem uma cripta. Enorme. Enorme mesmo! E é nela que se pode fazer homenagem a diversos personagens ilustres: Voltaire, Jean-Jacques Rousseau, Lagrange (o famoso matemático), Victor Hugo, Émile Zola, Louis Braille (que criou o braille...), Pierre e Marie Currie (prêmios Nobel da física) e Alexandre Dumas (que não respondeu porque os 3 mosqueteiros são 4...), e mais um monte de gente importante mas que eu não sei quem são por puro desconhecimento histórico. Enfim, é imperdível.
Quando saímos, olhamos para o céu ainda claro e chegamos a conclusão de que a noite era uma criança. Pegamos o metrô e fomos direto para o Arco do Triunfo. Após uma pequena confusão com a saída certa e a forma de chegar ao Arco (só tem passagem subterrânea, tentar atravessar aquela rua é suicídio), estávamos aos pés daquele colosso. Parece muito maior de perto do que de longe, e estava a maior confusão. Um monte de guardas e cordões de isolamento protegiam algumas pessoas que estavam visitando o túmulo do soldado desconhecido. Enquanto o Caike via perfeitamente o que estava acontecendo, eu tive que esticar o pescoço e me esgueirar no meio das pessoas pra ver quem estava lá. Nem ele nem eu reconhemos nenhuma delas (um senhor uniformizado parecendo militar e uma mulher mais jovem, que não era a nova senhora Sarkozy apesar de aparentar a mesma idade). Com aquele monte de gente esperando os ilustres terminarem a sua visita para começar as suas próprias, achamos que era mais produtivo subir para ver a vista.
Agradeço muito por aquela confusão, acho que se não fosse por ela (e pelo museum pass) o Caike não tinha topado subir as escadas. Ah, sim, são 50 metros de altura sem elevador numa escada em espiral de te deixar tonto.
Chegando lá em cima, tem um espaço que mais parece um museu, onde você pode aproveitar para conhecer os detalhes dos relevos do Arco enquanto espera os seus pulmões chegarem. Para isso tem um brinquedo muitíssimo interessante: é uma miniatura do arco do triunfo presa à uma mesa que você pode girar 360° e uns botões que você usa para escolher a altura. Conforme você vai girando a peça e escolhendo a altura, as imagens dos relevos correnpondentes à região escolhida do arco são projetadas num telão com direito a explicações históricas. Divertidíssimo!
Após a pausa pra descanso, são poucas as escadas a subir para o topo da construção e ter uma vista sensacional! Bom, o Caike não achou tão sensacional assim, pois mal conseguia chegar perto da grade e foi difícil tirarmos uma foto com Paris ao fundo... mas ele se superou e conseguimos! Fiquei felicíssima! E a foto ficou linda! Também, com aquela paisagem não tem como errar. Depois dessa, o Caike começou a se sentir mais à vontade e pudemos ver a distância que havíamos percorrido nos dois dias anteriores... fiquei impressionada comigo mesma, e comecei a acreditar que realmente aguentaria aquela viagem até o fim, pois meus planos incluíam muita, mas muita caminhada.
Pudemos então descer felizes, eu por ter tirado fotos maravilhosas de Paris, o Caike por estar voltando ao chão. Aproveitamos que a confusão havia acabado e pudemos observar o túmulo do soldado desconhecido, onde há uma chama eterna.
Depois de satisfeitos e confiantes por termos sobrevivido àquela escada monstruosa, achamos que conseguiríamos caminhar pela Champs Elysées até a Place de la Concorde, para vermos o obelisco. Apesar de uma chuva chata e fina fomos caminhando e procurando lojas de eletrônicos, onde o Caike procurava um jogo que estava para ser lançado e um hd externo, além de livrarias e lojas de música, onde eu procurava livros da Amélie Nothomb e presentes para os meus pais. Chegamos à conclusão de que não há lojas especializadas em eletrônicos, mas a Fnac e a Virgin podem subtituir quase qualquer loja, encontramos tudo o que procurávamos nelas, desde jogos e produtos eletrônicos até cds de dança oriental baratíssimos, além de uns 10 pocket books da minha escritora belga favorita, um livro de dança do ventre, e claro, os presentes dos meus pais.
Chegamos à praça carregadíssimos e pensando que tínhamos exagerado ao acharmos que sobreviveríamos àquela caminhada. Estávamos tão cansados e com tanto frio que mal conseguimos admirar o obelisco, que veio de Luxor, no Egito, em 1836, oferecido pelo governo egípcio mesmo, em agradecimento e homenagem a Champolliom, o francês que foi o primeiro a traduzir os hieróglifos. E olha que aquele gigante é lindo de morrer, coberto de hieróglifos que celebram a glória de Ramsés II. Nos contentamos com o esforço de tirar fotos enquanto tremíamos e depois fomos catar o metrô mais próximo. O que, diga-se de passagem, foi difícil de encontrar devido à nossa cegueira pelo cansaço. Demos uma olhada rápida na Madeleine antes de nos enfiarmos debaixo do solo, e fomos direto para o hotel, aproveitando apenas para passar numa vendinha e nos abastecermos de pão, queijos e salame para o meu jantar. O Caike resolveu comprar um sanduíche no Quick, uma loja no estilo do McDonald's, só que francesa. Ele até tentou tirar uma foto do cardápio da multinacional e onipresente rede americana que havia ali perto, mas era proibido. Ele só queria poder provar que o quarteirão com queijo na França se chama mesmo Royale.
Chegando no hotel, foi só comer, lavar roupa e dormir feito pedra. O dia seguinte prometia chuva e mais caminhada.


27 de abril - Museus e Monumentos





O dia começou cedo, bem cedo, porque queríamos tomar café na rua mesmo, antes de começar o café do hotel, pra começarmos a ver coisas o mais rápido possível a aproveitar o máximo do dia.
Ledo engano. Paris (mais tarde descobri que toda a França) não acorda cedo. Era mais de 7h da manhã e não tinha nada aberto. Nada, nadinha. Nem uma padaria, nem um bistrô, nem uma venda de produtos gerais de alimentação (é mais ou menos essa a tradução pra esse tipo de loja, "alimentation generale", coisa de francês). Tudo abriria a partir das 9h.
Andamos pelas ruas morrendo de fome, procurando algum lugar, qualquer um, que tivesse comida de alguma espécie, pensando que não era possível uma cidade grande como Paris não ter nada aberto aquela hora. E, acredite, é possível, não tem mesmo.
Só fomos achar alguma coisa quando bateu 8h e já estávamos em frente ao nosso primeiro objetivo do dia, a igreja Saint Germain de Près, que como todo bom monumento/igreja/museu da França só abre a partir das 9h. Isso quando eles abrem cedo, pra garantir não ficar esperando não chegue antes das 10h caso você não saiba o horário de abertura.
Bom, estávamos famintos e decepcionados com a porta fechada. Porém em frente tinha um lindo bistrô aberto, tinha até umas 2 mesas já ocupadas por pessoas tomando lindos desjejuns, com pães suculentos, chá, café, chocolate... fomos até lá determinados a comer independentemente do preço. Quando vimos o valor estampado no menu quase desistimos... mas nossos estômagos fizeram birra e tentamos contornar um pouco a situação dando uma de brasileiros, perguntamos se não podíamos pedir um café da manhã para nós 2 dividirmos e uma bebida quente extra. O garçom aceitou. Menos mal. Sentamos, dividimos o café da manhã que pareceu muito menor e menos variado que nas outras mesas (provavelmente porque pedimos o mais barato que tinha no cardápio e os outros deviam ter orçamentos muito melhores do que o nosso). De qualquer forma, enquanto estávamos lá, saquei meu guia de Paris da mochila pra ver o horário da Igreja, coisa que eu não tinha feito anteriormente, e pude constatar que realmente nosso plano inicial de madrugar não daria em nada além de fome e portas fechadas. Mas, também descobri que estávamos sentados num café muitíssimo famoso, o Deux Magots, onde outrara filósofos como Sartre se reuniam para discutir, quer dizer, para beber e, obviamente, filosofar. Agora eu entendia a razão do preço absurdo daquele lugar, a fama e a folosofia podem ser muito caras.
Depois do café, desistimos de esperar a Igreja abrir e resolvemos caminhar direto para o nosso objetivo seguinte: Museu D'Orsay. Apesar de chegarmos meia hora antes do dito cujo abrir, já tinha fila, e ela não era pequena. Conforme tentávamos descobrir em qual fila devíamos entrar (tinham duas, mas as sinalizações ao invés de ajudar atrapalhavam), mais gente ia chegando, nos deixando agoniados. Um cara de terno, que era uma espécie de segurança do museu (esses trabalham 24h aparentemente) nos ajudou e finalmente entramos na fila certa. Esperamos um bom tempo no frio da manhã nublada, não só até o museu abrir, mas depois também, porque além da porta giratória só permitir que poucas pessoas passem de cada vez para dentro do prédio, assim que você entra tem de passar por um detector de metais e mais uns guardinhas que pedem pra ver dentro da sua bolsa ou mochila (procedimento de praxe em todo museu europeu, vou logo avisando).
Finalmente chegou a nossa vez, passamos pelo detector, que ficou bem quietinho, e fomos comprar a melhor coisa de Paris pra quem gosta de museu: o Museum Pass! Pegamos o que valia pelo maior número de dias, seis, pagamos caro, porém não gastaríamos mais nada com entradas em praticamente toda a viagem, com a grande vantagem de ter o poder de furar fila porque sim. Se você for entrar em mais de 5 museus e mais uns 4 monumentos listados no passe, já está valendo. Como nossa lista era grande, nem pensamos duas vezes.
Até porque, como desconfiávamos, esse passe é a glória nos momentos de filas gigantescas, você se sente muito importante passando por todas aquelas pessoas esperando em pé até chegar na entrada especial que a maioria dos monumentos e museus de Paris tem para quem comprou o passe.
Mas voltando pro museu onde estávamos, compramos nossos tiquetes pro paraíso e fomos logo alertados de que tínhamos que deixar nossas mochilas no guarda-volume. Outra praxe chatíssima na europa: bolsas grandes e mochilas (pra essas o tamanho não importa, basta ser mochila) não podem entrar nas exposições. Eu resolvi me safar de deixar minhas coisas pra trás aproveitando que a minha mochila virava casaco e dei logo um jeito no problema. Já o Caike não teve opção... chegamos no guarda-volumes e fomos atendidos por um português muito simpático, que nos lembrou que pelo menos podíamos tirar fotos (sem flash!, claro).
Bom, quanto ao museu, por onde começar? O Museu D'Orsay era antigamente uma estação de trem, que inclusive foi muito usada pra receber refugiados na segunda guerra mundial. Depois de desativada na década de 70, foi reformada e transformada num museu simplesmente maravilhoso, inaugurado em 1986. Sério, é um museu que você não sabe se olha em volta ou pras obras, em sua maioria impressionistas. Lindo de morrer. Logo logo esquecemos da fome que passamos pela manhã e ficamos embevecidos com o nosso primeiro museu: Monet, Rodin, Manet, Van Gogh, Courbet... tudo tão lindo... não tem nem muito o que dizer, é o tipo de experiência que só vivendo mesmo. Cada um sente uma coisa diferente diante daquelas obras.
Depois de umas 3h de arte saímos de lá meio embriagados de cores, texturas, curvas e beleza. Já era hora do almoço... e a fome deu novamente o ar de sua graça. Fomos procurar um bistrô legal a caminho dos Invalides, um monumento que mistura museu, igreja e túmulos. Mas já vamos chegar lá.
Achamos um muito simpático, numa rua bem estreita e calma, o Sud Café. Aliás, recomendo. Comemos um macarrão muito bem feito, com carne e um vinho do Rhône fabuloso (aliás, mesmo o vinho mais barato na França é fabuloso, é impossível errar). Tudo com muito, muito açúcar, por conta da música romântica no fundo, pra fazer o clima do nosso aniversário de 2 anos de namoro. O dia que tinha começado meio esquisito já tinha ficado perfeito.
Depois fomos ao Invalides, que tem origem na vontade muito nobre do rei Luís XIV de criar um lugar que desse apoio aos inválidos do exército francês. Daí a origem do nome e toda a sua ligação com os militares durante toda a sua existência. Tanto que no complexo hoje existe o museu militar da França, com 2 exposições que nós decidimos não visitar por pura falta de tempo e por questões de prioridade entre os museus: uma de armas através da história e outra da segunda guerra. Mas fomos direto ver a Catedral de Saint-Louis-des-Invalides, que é de-tirar-o-fôlego... e atrás da catedral fica o famoso Dôme, onde está suntuosamente enterrado Napoleão e mais um monte de generais importantes. É intrigante ver como um homem tão pequeno deu origem a um túmulo tão grande... e mesmo assim, tenho certeza de que o ego dele não caberia ali.
Todo o Dôme é uma ode ao que Bonaparte fez em vida, com altos relevos por todas as paredes, trazendo-o como César, e com descrições de conquistas ou de decisões importantes e revolucionárias que ele tomou (como tornar a escola primária pública e universal). Muito bonito, vale a pena visitar, e se você souber francês, é uma atração a parte ler os feitos napoleônicos. Deixa também você imaginando como não deveria ser na época em que aquela imensa cúpula dourada era mesmo revestida de ouro, que quantidade absurda do valioso metal não deveria ser necessária pra cobrir aquela coisa imensa... hoje é só tinta dourada, mas continua espantoso.
Saímos de lá animados para a próxima atração do dia: o museu Rodin.
Não é um museu grande, mas de todos os museus de Paris é o mais agradável de visitar, ainda mais num dia bonito como aquele, com sol mas algumas nuvens pra deixar mais ameno. É simplesmente o clima perfeito pra visitar esse museu-jardim. A concepção é genial: as grandes obras de Rodin estão expostas ao ar livre, no jardim da casa que abriga o museu, no meio das flores e de muito verde.
As obras de menor dimensão ficam dentro da casa, o antigo Hôtel Biron, do século XVIII, onde Rodin viveu no início do século XX e que deixou para o estado juntamente com sua coleção pessoal de esculturas, além de quadros de Van Gogh e Renoir, com a condição de que a casa fosse transformada num museu que levasse o seu nome e abrigasse suas obras (espertinho ele, não?).
Eu que sou fã de Rodin fiquei maluca com aquilo... é mesmo muito bonito, e toda aquela genialidade dele junta é de matar do coração... tiramos fotos de quase todas as obras expostas (impossível de segurar o dedo na máquina digital), e de quebra ainda tiramos um rápido cochilo num dos bancos do jardim, que foi feito mesmo pra ser aproveitado, cheio de bancos bem espaçosos e espreguiçadeiras. Simplesmente uma delícia.
Depois de algum esforço pra deixar aquele pedaço do céu na terra, fomos andando até o Campo de Marte, o gramado enorme que fica em frente a Torre Eiffel. E no caminho compramos uma enorme baquete, salaminho, queijo e suco de laranja. Fizemos o que os parisienses adoram fazer: um piquenique ao ar livre! Observando nada menos que a Torre, e os diversos franceses e turistas (em menor número, a maioria dos turistas não pára ali, está apenas de passagem para visitar a torre), todos aproveitando o restinho de sol (já era umas 18h, mas ainda faltava umas 3 horas pro pôr do sol). Aí que comecei a perceber que os parisienses realmente usam os espaços públicos! A quantidade de pessoas reunidas ali depois do expediente para tomar vinho e comer alguma coisa era espantosa! Fora as famílias com suas crianças e/ou cachorros todos brincando de bola, peteca, ou algo do gênero. Fora as pessoas sozinhas, com suas garrafas de vinho e seus livros (como se lê em Paris!)... e todo mundo usa canga pra se sentar no gramado! Se fosse areia, seria que nem a praia de Copacabana no verão, só que com pessoas vestidas, silenciosas (apesar de muito animadas!), educadas, sem pivete, e nem guarda-sol.
Ficamos ali matando tempo e descansando os pés por uma hora, pois pela nossa programação o dia ainda ia render muito. Quando cansamos de ficar parados, nos levantamos e fomos conferir a torre de perto, passamos por baixo dela, nos horrorizamos com os tamanhos das filas e fomos ver como era a vista dela do outro lado do rio, do Trocadéro.
Bom, vou só dizer uma coisa: é uma farofada só. Se já tem camelô debaixo da torre (e eles são raros na cidade, e inexistentes no resto do país), o Trocadéro parece ser o seu habitat natural. São muitos! Um do lado do outro, fora os que ficam circulando, oferencendo na maior parte das vezes chaveirinhos com miniaturas da torre, por um preço ridículo se comparado com qualquer loja de souvenirs (fica a dica!).

Pausa pra reflexão: para um país famoso por sua predileção por cachorros à crianças, os franceses adoram mimar seus filhos com carrosséis... só perto da Torre Eiffel tem uns 2!

Aproveitamos para tirar mais fotos ainda e descansamos mais um pouco. Quando vimos que nosso horário estava folgado, pois nosso piquenique era também o nosso jantar, resolvemos aproveitar e acrescentar mais um ponto turístico no nosso roteiro: a praça Vendôme! Pegamos o metrô e chegamos bem rapidinho.
Essa praça é conhecida por sua coluna de bronze (totalmente esverdeado pela exposição ao ar livre) e por suas lojas chiquésimas. Por conta da hora, parecia que ela era só nossa, pois estava completamente vazia! Pudemos admirar com toda a calma a coluna, que conta com 280 metros de descrição de cenas de batalhas numa espiral que vai subindo até o topo da coluna, onde tem uma estátua de Bonaparte, de data posterior ao resto da coluna. Dizem que o seu bronze provem de 1200 canhões russos e austríacos, tomados durante guerras, porém os especialistas acham que foram apenas uns 130 tomados em Austerlitz. Nada como a propaganda governista. Aliás, essa coluna é também protagonista de um episódio muito interessante, envolvendo um artista e a comuna de Paris (episódio muito importante na história da cidade, e ao qual voltarei a falar em outro dia desse diário).
Antes do estouro da comuna, o famoso pintor Gustave Courbet (aquele que pintou uma vagina bem no meio de um quadro e denominou-o "Origem do Mundo"), que era bem chegado a uma opinião política forte e socialista, fez uma petição ao governo pedindo a destruição do monumento. Obviamente que o episódio criou um grande frisson e o artista foi duramente criticado, inclusive isso acabou afetando e muito o seu trabalho na época, que deixou de ser aceito nos salões. Depois de um tempo, a poeira baixou. O problema, é que quando se iniciou a comuna, em 1871, ele participou ativamente, claro, e os dirigentes dessa, apesar dos apelos do pintor, resolveu mesmo derrubar a dita cuja, proclamando que "A Comuna de Paris considera que a coluna imperial da Praça Vendôme (na época e estátua que existia no topo era de Louis XIV) é um monumento à barbárie, um símbolo da força bruta e da falsa glória, uma afirmação do militarismo, uma negação do direito internacional, um insulto permanente aos vencedores e vencidos, um atentado perpétuo a um dos três grandes princípios da República: a Fraternidade!" Eles eram avançados demais pra sua época, né? Não é a toa que foram exterminados, mas isso é outra história.
Depois de extinta a comuna, Courbet ficou eternamente manchado com a culpa colocada em suas costas como o grande autor e responsável pela idéia de derrubar a tal coluna, que obviamente foi devidamente recolocada no lugar, e a estátua em seu topo (que foi a única peça realmente partida em pedacinhos) substituída pela atual. Ah, e o preço dessa recolocação e restauração foi cobrado inteiramente do artista, uns 323 mil francos na época, uma fortuna que o arruinou financeiramente, pois ele não tinha todo esse dinheiro. Resumo da ópera: confiscaram absolutamente tudo que ele tinha por conta da comuna e ainda exigiram esse pagamento, depois de refugiado na Suíça, ele consegue um acordo para pagar o valor em prestações de 10 mil francos por ano por 33 anos. Mas isso tudo foi demais pra ele, e Courbet acabou falecendo antes mesmo de pagar a primeira parcela.
Acabada a pequena aula de história e voltando ao nosso passeio, dali fomos para a agência de turismo francesa onde tínhamos comprado pela internet um pacote de city-tour noturno (para ver os monumentos iluminados), seguido de um show no Moulin Rouge!
Como eu estava morta de cansada de ter acordado cedo e passado o dia inteiro andando, somando-se ao fato de que eu já tinha visto quase todos os monumentos mostrados no tour, fiquei batendo cabeça no ônibus o tempo inteiro... mesmo assim, posso fazer a seguinte afirmação: Paris é mesmo a cidade luz! Mas você precisa rever o seu conceito de iluminação antes de concordar... esqueça as luzes ostensivas das grandes metrópoles poluídas por neon e tvs gigantescas. Paris tem classe. Sua iluminação é aquela escolhida pelos arquitetos, serve para preencher e valorizar os espaços e a arquitetura dos prédios, não para deixa-los chapados como a cara de uma pessoa perto demais do flash. Portanto, ela é mais sutil e indireta, e deixa alguns lugares na penumbra para valorizar outros. E ela é incrivelmente coerente pela cidade inteira. Até mesmo a Torre Eiffel com aqueles pisca-piscas todos, que eu achava muito brega, combina perfeitamente com o conjunto de monumentos iluminados e fica espetacular. Pena que com o ônibus em movimento não dá pra tirar fotos. Resumindo, é realmente um tour bonito de ver, e mais impressionante ainda se você vir as coisas iluminadas antes de vê-las durante o dia.
Depois fomos levados até o Moulin Rouge para o espetáculo Férie (em tradução livre minha "feérico"). O que dizer do show? É um tanto quanto perturbador: nunca imaginei que mulheres semi-nuas pudessem se transformar em algo tão GAY. Esqueça o cabaret do século XIX e o filme, o show é GAY, muito GAY. Logo se percebe que o produtor daquilo é viado, o coreógrafo é tão gay que não sabe o que é sensual na mulher, o compositor solta purpurina pelos poros e o estilista, bom, melhor nem comentar, é uma "queen". Você ri muito durante o espetáculo, pelo completo non-sense e impossibilidade estética e teórica do que está assistindo. O show conta pequenas histórias, que as vezes se conectam, com direito a um casal oriental que se apaixona mas é obrigado a se separar, aí a mocinha é seduzida por um europeu, que a joga entre cobras! Literalmente. Juro que sobe do chão uma piscina de vidro (de forma que você vê tudo debaixo d'água) onde a mulher é jogada, no meio de cobras de verdade que nadam no meio das águas, não antes da atriz gritar estericamente. Claro que no final, o casal se reencontra, só que à moda Peter Pan, sobrevoando a platéia, iluminados por luz negra e por uma lanterninha que os próprios atores seguram para iluminar os seus rostos. É engraçadíssimo!
Aí você pensa, bom, realmente engraçado, mas não pode ficar pior do que isso. Ledo engano, o elenco todo ainda canta "I will survive". Aí você pensa, é o fundo do poço! Ledo engano. Você ainda vai ver todo o elenco, incluindo os homens (tem homens!!!! Só que eles estão sempre devidamente cobertos, quer dizer, quase sempre) entrar no palco por uma escada que desce do teto cobertos dos pés à cabeça de cor-de-rosa-choque e plumas, muitas plumas, em trajes iluminados (literalmente! com lâmpadas e tudo!)
Só não piora mais ainda porque o espetáculo acaba, e você está com dor de barriga de tanto rir. Meninas, não tentem assistir ao show de maquiagem pesada, ela não vai resistir.
Além de tudo isso, o show possui pequenos intervalos para as bailarinas e bailarinos trocarem de roupa (as mulheres trocam apenas os fios dentais, saltos agulha e fios que ressaltam que estão com os seios de fora), que são ocupados por números circenses, esses muito bons, não tem onde pôr defeito.
Todo o show tem apenas 5 minutos do que realmente queríamos ver: cancan. Mas são belos 5 minutos que fazem a platéia vibrar! É emocionante! E você consegue vislumbrar o quê que é o cabaret original, e a razão das bailarinas não serem tão boas nas outras coreografias: elas sabem mesmo é dançar cancan!
Acabado o espetáculo, estávamos nós também acabados. Graças a Deus a companhia de turismo providencia o transporte até o seu hotel, senão estávamos fritos, porque o show acaba depois de 1h da manhã, quando o metrô já fechou.
Voltamos ao hotel com fome por causa da hora, mas estávamos tão cansados que só queríamos dormir. Chegamos lá, e o cara da recepção estava deitado numa cama estendida no micro salão usado para o café da manhã. Ele nos indicou que a nossa chave estava no balcão e só se preocupou quando eu entendi que ela estava nos lugares onde se guardam as chaves dos quartos, do outro lado do balcão. A chave estava do lado de fora, em cima da mesa mesmo. Como eu iria ver naquela escuridão que elas estavam ali? Mas enfim, conseguimos subir e capotamos. Mesmo. O dia seguinte também seria cheio.