Acordamos no nosso hotel maravilhoso com a vista cheia de
balões... se a vista já era linda antes, com os balões ficou ainda mais mágica!
O café da manhã estava simplesmente perfeito, sem dúvida o melhor da viagem em
termos de variedade e qualidade da comida! E nós precisávamos de muita energia!
Vista do hotel com os balões
Esse dia foi totalmente dedicado a conhecer a Capadócia.
Acordamos bem cedo para sermos os primeiros a chegar no Museu a Céu Aberto de
Göreme. Mais tarde viemos a descobrir que chegar cedo também significa pegar
bem menos sol e calor...
A Capadócia é uma região com uma paisagem única e com uma
cara meio lunar... com suas rochas de origem vulcânica extremamente macias, o
que as tornam fáceis de deformar pelos ventos ao longo do tempo, por isso o
perfil da paisagem é realmente muito diferente. Além disso, suas rochas e solo
foram usadas durante muitos séculos para escavar casas e até cidades inteiras.
Göreme é uma dessas cidades!
As rochas "esburacadas" de Göreme
Criada por uma leva dos primeiros cristãos, que procuravam
viver de forma monástica e eremita, pelos idos do século III, eles aproveitaram
algumas construções já existentes e fizeram muitas novas, incluindo diversas
igrejas, criando um grande complexo de cavernas.
A visita é um pouco cansativa, pois os quartos e igrejas
ficam espalhados pelas rochas, como se fossem mini-montanhas, e durante o
passeio se sobe e desce um monte de ladeiras e escadas!
Mas vale a pena cada gotinha de suor, pois o lugar é muito
lindo e exótico! As igrejas são todas lindas e muito diferentes do que você
poderia imaginar de igrejas em cavernas. Primeiro, elas são inteiramente
escavadas, mas isso não as impede de ter colunas! Segundo, são todas lindamente
pintadas por dentro! E o mais interessante, em algumas delas existem 2 camadas
de pintura, pois a primeira camada decorativa, datada do início da ocupação de
Göreme, era muito simples e limitada, e até o final do século XIII, novos
afrescos, bem mais complexos, foram pintados por cima, e novas igrejas também
foram construídas até o final desse período.
O único porém é que não podemos tirar fotos no interior das
igrejas, nem sem flash :-(
No interior das igrejas não pode, mas algumas desabaram parcialmente e podemos ver as pinturas expostas!
Algumas igrejas também estão um pouco depredadas, pois
depois que os cristãos abandonaram a região, os muçulmanos que chegaram depois
simplesmente não entendiam o que eram aqueles afrescos, e alguns mais radicais
tentaram até mesmo destruí-los (lembrem que para o islamismo a representação de
criações de Deus, incluindo seres humanos, é vista como heresia). Isso também
explica os nomes dados às igrejas: igreja da maçã, da sandália... pois os
moradores do local não reconheciam os santos nem as imagens!
Depois de começar a sentir o calor que é capaz de fazer na
Capadócia, fomos fazer outro passeio exótico: conhecer uma cidade subterrânea!
Como mencionei anteriormente, essa região é composta
basicamente de pedra vulcânica, fácil de manusear (ela se desfaz com a unha!),
e por ser muito erma, foi usada ao longo da história como esconderijo de
diversos povos. Algumas das cidades subterrâneas dessa região datam da época
dos Hititas (um povo conterrâneo dos egípcios, quem leu a Saga de Ramsés de
Christian Jacq já ouviu falar deles), e diversas outras foram feitas ao longo
dos séculos. As mais modernas foram feitas pelos cristãos que habitaram essa
região, para servirem como esconderijo nos momentos em que foram caçados
(primeiramente pelos romanos, e mais tarde pelos muçulmanos).
Uma das maiores galerias da cidade-caverna
Existem cidades subterrâneas de diversos tamanhos, que
comportam diferentes quantidades de pessoas, com espaço para manter um estoque
suficiente de comida para pelo menos alguns meses. E dentro dessas cidades tem
de tudo, desde estábulos, até cozinha (com direito a uma chaminé que fique bem
longe da entrada da cidade, claro), quartos de dormir, local para fabricação de
vinho etc. tudo o que fosse indispensável para sobreviver.
Mas essa visita também não é para qualquer um, pessoas com
claustrofobia e problemas cardíacos podem passar mal, pois as salas debaixo da
terra são todas bem fechadas, com passagens pouco apropriadas para pessoas com
mais de 1,60m. Em algumas dessas passagens até mesmo crianças precisam se
abaixar, pois a idéia era manter o controle e dificultar a passagem de inimigos
no caso deles descobrirem a localização dessas cidades. Até portas à la Indiana Jones foram usadas
nessas cidades!
Para ter uma ideia do tamanho do corredor, eu, essa "enormidade" de pessoa, precisei me agachar assim!
As portas são grandes pedras que só podem ser movidas pelo lado de dentro
No caso da cidade que fomos visitar, ela foi descoberta
recentemente (anos 90) por conta de uma galinha fujona. O fazendeiro, dono da
área, que descobriu a cidade, alertou as autoridades, que confiscaram a sua
terra, por conter um sítio arqueológico, e com o dinheiro que ele recebeu de
indenização ele abriu a lojinha de souvenires que existe bem em frente à
entrada. Não sei se ele fez um bom negócio, mas certamente a visita foi
inesquecível! É realmente uma experiência única se sentir uma formiga debaixo
da terra, passando por todos aqueles túneis... ah, e é frio lá embaixo! Apesar
de não haver um sistema de ar condicionado, a porosidade da rocha funciona como
um filtro de ar, purificando e gelando tudo! Quanto mais baixo e mais longe da
entrada da caverna, mais frio!
Depois do choque térmico de sair da caverna para encontrar o
calor da superfície, pegamos o nosso ônibus e fomos levados para uma loja de
tapetes, outro ponto turístico que não dá para pular quando se vai à Turquia! O
interessante dessas visitas é que você pelo menos aprende alguma coisa sobre o
artesanato local, ao invés de apenas fazer compras.
A loja que visitamos funciona também como escola de
tapeçaria, ensinando a jovens pobres (sempre mulheres) a ganharem um dinheiro
extra para a sua família. E na entrada da loja tem um atelier onde um dos
vendedores explica a diferença entre os tipos de nós usados na fabricação dos
tapetes, a diferença entre os tipos de material utilizados, como se tinge cada
tipo de material etc... tudo para você entender muito bem porque os preços
variam tanto e justificar o valor cobrado na loja :-)
Jovem tecendo tapete, a velocidade com que elas tecem é incrível!
Brincadeiras à parte, a aula é realmente interessante. E a
apresentação feita dos tapetes à venda, já na loja e depois de servirem um
monte de tipos de bebidas (inclusive alcoólicas, o que demandam certo controle
por parte do cliente que não quer gastar dinheiro), é muito bonita. Os tapetes
em si são todos lindos, e aula que se tem sobre padrões, cores e tipos de
tapetes falsificados é digna de um museu! Só que nesse museu você pode comprar
as peças que você gostou e levar pra casa. Eu, como sou alérgica, usei do meu
autocontrole para não comprar nada. Foi muito difícil, mas eu consegui.
Alguns tapetes são tão detalhistas que mais parecem quadros!
Como a compra de tapetes pode ser um processo um pouco
demorado (não só pela escolha do tapete, mas também pela negociação do preço a
ser pago – afinal estamos falando da Turquia), o grupo se dividiu entre aqueles
que iriam comprar tapetes e aqueles que estavam com fome. Os primeiros ficaram
até mais tarde na loja, enquanto os segundos foram direto para um belo
restaurante que é uma réplica de um caravançarai (lugar para descanso e
pernoite para as antigas caravanas). O restaurante por si só era uma atração,
mas, além disso, a comida era muito boa e bem servida, apesar de não haver
menu. O sistema era de entrada, prato principal e sobremesa, com algumas poucas
opções de cada prato. Mas o preço era justo, e eles aceitavam cartão de
crédito.
Depois de um almoço bem demorado, o que foi muito bem vindo,
fomos visitar o “vale das fadas”. Lembra que eu mencionei que a Capadócia tem o
solo feito de uma rocha vulcânica fácil de ser moldada? Pois bem, cada camada
do solo tem uma facilidade um pouco diferente de ser moldada pelos ventos, e
com isso, ao longo dos séculos, foram sendo criadas, naturalmente, diversas
estruturas que se assemelham a cogumelos, daí o apelido de vale das fadas.
Outros nomes mais vulgares também são usados pela população local, mas isso eu
deixo para a imaginação de vocês.
Vale das Fadas
E foi durante esse passeio que eu entendi o que é o clima
continental durante o verão... a Capadócia é um lugar de extremos, chega tanto
a -20° no inverno quanto a 50° no verão. E eu juro que fica mais quente do que
no Egito quando chega a 50°! Nunca imaginei que fosse visitar um lugar nessa
temperatura... e como o clima é extremamente seco, a diferença de temperatura
entre a sombra e o sol é bizarra! Na sombra chega até a ser agradável, enquanto
debaixo do sol de 50° a coisa fica bem complicada. Mas como as rochas são muito
porosas, qualquer caverna parece ter um ar condicionado natural, o que facilita
muito a exploração do vale.
Na sombra é muito mais agradável...
Esse tipo de formação rochosa é encontrada facilmente em
toda a região, e algumas chegam a ter formatos mais peculiares e recebem nomes
especiais, como “3 reis magos” e o “camelo”.
O Camelo
Toda a região parece um verdadeiro queijo suíço, pois em
todas as rochas tem cavernas escavadas pelo homem, mas algumas estruturas
merecem uma atenção especial, como o castelo que demos uma paradinha para ver
de mais perto. E, aproveitando a parada técnica, encontramos um barzinho para
tomarmos um chá gelado enquanto curtíamos um calor digno do Rio de Janeiro no
auge do verão. Ok, talvez fosse pior.
"O Castelo" mais parece um queijo suíço
Depois de derreter o cérebro no calor de 50°, nossa guia nos
levou para conhecer outro “artesanato” típico da região: o trabalho de ouro e
prata com pedras preciosas. E claro, a pedra mais famosa da Turquia: a
turquesa. Lá aprendemos também a distinguir a pedra falsa da verdadeira, o
único problema é que quando a cópia é boa só dá para ver se a pedra é
verdadeira ou não se a quebrarmos. Não adianta muito, né? Mas a visita valeu à
pena, pois a loja era realmente muito bonita e os preços realmente tentadores.
Após essa visita, o nosso grupo se dividiu novamente, pois
nem todos queriam assistir ao show dos dervixes rodopiantes. Claro que eu e o
Caike fomos ver os sufis dançando. A cerimônia (chamada Sema na Turquia) foi
realizada num lugar muito interessante, pois era numa casa com um jeito bem
simples, com uma pequena loja de souvenires no térreo, e uma escada que dava
para o subsolo. O subsolo era um salão imenso e frio (por causa da rocha
porosa), que mais parecia um local de encontro religioso mesmo.
No centro do salão tinha um palco redondo, onde seria
realizada a sema. A cerimônia foi realizada por um grupo de 4 dervixe, mais 3
sufis que serviram apenas de músicos, e mais o mestre do grupo. Como é uma
cerimônia religiosa, não podemos tirar fotos, mas isso não faz a menor
diferença, pois o importante ali certamente não era a parte visual (apesar de
ser muito impressionante).
A cerimônia começa com os músicos tocando uma linda música
sufi, daquelas que só de ouvir você começa imediatamente a meditar, depois
entra o mestre e os demais dervixes, que seguem todo um cerimonial específico,
que tem um simbolismo lindíssimo (isso pode vir a ser um post no futuro...), e
no final o mestre faz um sermão com base no corão ou em ensinamentos sufis
(essa parte eu não entendi nada snif snif snif). A entrega dos dervixes era tão
grande que dava para perceber as variações mais ínfimas na música, de forma que
todos eles paravam de rodopiar ao mesmo tempo... e depois de umas duas sessões
de rodopio já dava para saber quando eles iriam parar. Algo realmente mágico de
se ver.
O bacana mesmo é a experiência de assistir o sema, pois se
você der sorte de assistir um ritual de verdade, é algo realmente fantástico! A
sensação que eu tive foi de estar dançando e meditando junto com os dervixes...
saí de lá extasiada! Foi uma das coisas mais lindas e emocionantes que já vi.
Mas não é todo o mundo que entra nesse clima...
Durante a cerimônia não pode tirar foto, mas depois os dervixes dão uma palhinha para os turistas registrarem
Depois da cerimônia voltamos para o nosso hotel na caverna,
e fomos jantar junto com o casal paulista. Dessa vez eu e o Caike pedimos um
“Celtik Kebab”, que era um prato de carne de carneiro com batata palha e
iogurte, enquanto o casal pediu peixe. Para variar tudo estava divino! Apesar
de confessar que eu gostei mais do prato que eu havia comido no dia anterior...
Após o jantar fomos direto dormir, pois o balão sairia
absurdamente cedo no dia seguinte.
Acordei absurdamente cedo, para conseguir fechar a mala, pagar a conta do hotel (onde sabiamente deixei as malas, sem custos extras) e ainda conseguir pegar o trem às 8:15h. Nem sei pra quê me esforcei tanto, os atrasos nos trens estavam ficando frequentes e esse saiu quase meia hora mais tarde. Será que os franceses não são tão pontuais assim mesmo ou é um poder dos brasileiros fazerem tudo atrasar? Pelo menos a viagem foi tranquila, tão tranquila que ninguém checou o meu bilhete.
De qualquer forma, por causa do trem, cheguei atrasada para as minhas programações de visitas guiadas, incluindo o temeroso trenzinho (que em Chartres se chama Chartrains, um trocadilho muito fofo!). Porém, para compensar o azar, encontrei uma senhora e um casal de brasileiros muito simpáticos, que estavam completamente perdidos na estação. Eles acabaram por me acompanhar até o ofício de turismo da cidade, para pegarmos mapas.
Fomos atendidos por um atendente gay muito solícito, que nos explicou cada pedacinho do mapa (e eu fui traduzindo para os outros, que não falavam uma palavra de francês). Para variar, o ofício daqui é muito bom, com um mapa muito legal, que tem um circuito turístico gratuito que me pareceu muito bom (o que não é tão comum, como pude perceber até agora).
Agora "armados", fomos para a Catedral, que é realmente deslumbrante. Não consigo pensar em outro adjetivo, ela é tão linda que acabei por passar o dia inteiro explorando-a. Aviso logo que é preciso muito cuidado e esforço para não fazer isso, pois os vitrais e as esculturas externas são hipnotizantes.
Para variar, a Catedral de Chartres, datada do século XIII, foi construída em cima de outra igreja, de estilo romano, destruída num incêndio em 1194, do qual sobreviveu apenas a cripta e a fachada ocidental, que foi construída em cima de uma outra igreja, mais antiga, que foi construída em cima de outra, que foi construída em cima de outra, que, por fim, foi construída em cima de um poço pré-céltico, que, dizem, ficava dentro de uma gruta usada como santuário. Ufa! Detalhe estarrecedor, o poço ainda está lá. Mas vamos chegar nessa parte da minha visita mais tarde. O edifício atual, é considerado uma das obras primas da arquitetura gótica e não dá pra perder, numa visita rápida: o vitral mais famoso da Catedral, Nossa Senhora do Vitral (no original Notre Dame de la Belle Virrière); a estátua de Notre Dame du Pillier (Nossa Senhora do Pilar); o labirinto inscrito no chão da nave; um relógio de sol na fachada e mais um relógio de sol (pelo menos os dois parecem relógios) no portal de Sainte Anne. Se sobrar tempo: a cripta (imperdível para quem se interessa pela cultura celta ou madonas negras) e a torre (proibida para quem tem medo de altura ou coração fraco).
Quando percebi eu estava há uma hora dentro da igreja, e ainda não tinha nem tentado descobrir os detalhes e horários do passeio para a cripta (eu não podia deixar de ver a Madona Negra de Chartres, nem por decreto!), nem visto a torre, nem nada. E os brasileiros tinham sumido.
Acabei conseguindo pegar o passeio de 11h para a cripta, que, adivinha, atrasou e começou só às 11:15h. Mas valeu... a cripta de Chartres é um lugar mágico! Feita de resquícios da Catedral antiga, romana, ela possui 2 vitrais lindos... sendo um deles de Maria Madalena. E de quebra dá para visitar o poço celta e ver resquícios de edifícios anteriores. É lá também que se encontram a Madona Negra e uma relíquia da Virgem (um véu branco, que já rodou muito e sobreviveu ao incêndio do século XII). Nessa cripta, onde fica a Notre Dame Sous Terre ainda tem missa todos os dias às 11:45h.
É tanta coisa pra falar da cripta nem sei por onde começar... para resumir: o poço celta, que é datado de antes de cristo, tem 35m de profundidade (aproximadamente), é redondo em cima, mas no fundo é um quadrado perfeito, sendo que cada lado está voltado para um ponto cardeal, e o quadrado está perfeitamente inscrito no círculo. Uma coisa fabulosa!
A Notre Dame Sous Terre é uma madona negra, que, nesse caso, é "descendente" de uma divindade celta, o que explica a sua característica singular de ter os olhos fechados. A estátua não é original, infelizmente, mas é linda! Conferindo à cripta uma atmosfera fantástica... é um tipo de santuário que deve ser visitado, e onde acender uma vela é uma experiência muito gratificante.
Saindo da cripta, na hora da missa, eu estava morrendo de fome, por conta do parco café da manhã (pão com chocolate e castanhas, além de um pouco de pistache). O problema é que ainda era muito cedo e não tinha quase nada aberto. Resolvi começar o circuito turístico a pé pela cidade, mas desisti quando percebi que se me afastasse da catedral, não teria certeza de encontrar lugares para comer um "menu" (entrada, prato principal e sobremesa), além de que eu ainda queria subir a torre! Então, achei que era melhor apenas conhecer os entornos da Catedral. E foi a melhor coisa que eu fiz! Atrás da igreja, onde hoje fica o museu de belas artes, tem um jardim maravilhoso com uma vista estonteante da cidade, que tem mesmo cara de cidade do interior (em padrões europeus, faz favor).
Depois de alimentar ainda mais a vista, fui encher o estômago, num restaurante com o maior jeitão de chique, com chef a caráter e tudo esperando os clientes na porta. Mas o preço era bem moderado, e tinha a vantagem de poder comendo apreciando a fachada do portal de Sainte Anne. Acabei por almoçar uma entrada de camarão, um peixe maravilhoso, feito dentro de papel alumínio, com cenouras e abobrinhas para acompanhar. O prato principal estava meio apimentado demais pro meu gosto, mas o delicioso chá "bourbon" que pedi ajudou muito. De sobremesa escolhi na sorte uma "torta bom cristão" divina, feita de nozes e maçã (ou seria pêra?), a especialidade (comprovada!) da casa.
Apesar de tudo estar maravilhoso, a comida e a vista, durante o almoço acabei presenciando algo que me deixou muito triste e chocada: entre um grupo e outro de estudantes que visitava a igreja guiados por professores, apareceram 5 meninas, adolescentes na verdade, que chegou fazendo o maior estardalhaço, sentaram na porta (literalmente, não era na escada, era na porta mesmo, atrapalhando as pessoas) e começaram a falar alto (gritar é mais próximo da realidade) e a ouvir rock pesado muito alto. Pareciam crianças testando os limites, sabe? E riam alto dos turistas que passavam e olhavam espantados para aquela cena grotesca. Daí, elas resolveram almoçar ali mesmo, tiraram sanduíches das mochilas e depois ainda fizeram guerra de comida. Isso mesmo: pedaços de pão pra tudo que é lado, emporcalhando tudo. Depois que viram a confusão que deixaram, elas levantaram e foram embora, deixando toda a sujeira.
Nesse momento, os cozinheiros e garçons do restaurante onde eu estava saíram em perseguição às adolescentes, que fugiram e só uma foi pega. Ela levou um esporro danado, mas a safada ficou dizendo que não tinha sido ela. Uma cena vergonhosa, realmente. O chef é que acabou juntando o lixo todo e jogou fora depois.
Após toda essa emoção, fui subir a torre! Aí sim eu descobri o que é emoção! Não tenho medo de altura, mas sério, tive vertigens e morri de medo lá em cima. Mas valeu a pena! A vista da cidade de lá é inigualável (até porque a torre é o ponto mais alto da cidade, já que a Catedral é o edifício mais alto e fica numa elevação), e ainda tem as gárgulas e outras esculturas que você consegue ver de pertinho... fora a vista da Catedral por cima, que é no mínimo interessante! Mas para ver isso tudo você precisa superar o medo, não ligar pro vento forte que bate lá no alto, e o mais importante, não ligar para os buracos (pequenos) e rachaduras. Evite pensar na idade da torre, ajuda muito também. Conversar com as outras pessoas no meio do caminho, como o casal da Flórida e outro casal brasileiro que encontrei, ajuda a manter a perspectiva, e deixa o aperto da escada em caracol mais alegre e divertido. A torre tem diversos pontos de parada até o topo, vale a pena sair da escada e visitar todos eles, ainda mais porque eles te preparam para o ponto final. No topo da torre, tem uma espécie de vigia, e você consegue contornar toda a torre, se tiver coragem. Eu não sei como consegui, mas dei a volta completa e desci renovada pela adrenalina.
E preocupada com a hora. Quando cheguei no chão, era mais de 15h e o meu trem saía às 17h, e eu não tinha visto nada da cidade! Fui direto para o trenzinho, fazer uma visita relâmpago. E dessa vez eu aprovei a viagem, acho que é mesmo melhor pegar esses trenzinhos sem ter visto nada da cidade ainda. Além de que dessa vez o próprio condutor ia fazendo os comentários, sempre com piadinhas no meio do caminho. Foi muito divertido! E eu fiquei meio chateada com o meu tempo escasso para conhecer a cidade... Chartres é linda... definitivamente não é só pra ver a Catedral. Fiquei devendo uma visita de verdade.
Na reta final do dia, resolvi fazer visitas estilo "fast food" em duas outras igrejas da cidade, St Aignan e St Pierre. Para minha felicidade, St Aignan ficava bem no meio do caminho para St Pierre, o que ajudou muito! Ela é discreta por fora, mas lindíssima por dentro, toda coberta de afrescos, e muito iluminada! Dei a sorte de pegar uma aula de órgão dentro da igreja, um senhor ensinava uma menina como tocar o instrumento... só não fiquei mais para apreciar por causa da hora, meu tempo estava acabando...
E ainda tinha ver St Pierre, que é muito interessante, mas não tão bonita quanto St Aignan, pois é totalmente lisa por dentro, com menos coisas para se ver. Porém, tem uma curiosidade fantástica: é uma das raras igrejas construídas dentro da terra, para você entrar é preciso descer as escadas, e não subir.
Já nervosa por causa da hora, saí da igreja com o mapa na mão, e fui correndo pela cidade até chegar na estação, entrei no trem e me sentei. Comecei a verificar se estava tudo certo no meu eurailpass, quando topo com um outro casal muito simpático, de Ohio (nunca imaginei que tivessem tantos americanos visitando a França...). Achei muito fofo, eles acharam que eu era uma estudante mochileira... principalmente por causa dos pins que eu estava colecionando durante a viagem, e o seu volume já estava começando a chamar atenção, e fazendo sucesso!
Foi então que eu olhei bem na descrição do trem e percebi que tinha pego o trem errado! Esse era 20 minutos mais cedo do que eu tinha planejado...
O que no final das contas foi bom, pois chegando em Paris vi nos monitores do metrô uma notícia alarmante para os meus planos: o metro e o RER não estavam passando pela Gare du Nord por causa de um incêndio. Justamente na estação onde eu pegaria o trem para Bruxelas, e eu tinha hora para chegar lá, porque a amiga da minha mãe que me receberia na sua casa iria me buscar na estação.
Chegando na estação de metrô do meu hotel, corri para o cyber café mais próximo, comprei uma hora de internet, pequei fone e microfone e fui pro Skype: liguei primeiro para a Janaína, minha amiga que me encontraria na Gare du Nord para pegarmos juntas o trem (justamente ela que costuma estar atrasada e que não fala francês), para avisá-la dos últimos acontecimentos e pedir para que fosse mais cedo para a estação, afinal o trânsito e a estação deviam estar muito confusos. Depois liguei para a Janete, a amiga da minha mãe, para avisá-la da confusão (eu suspeitava de um novo atraso nos trens). Ela me aconselhou a ir pro hotel o mais rápido possível e pegar um taxi.
Comecei indo pro hotel, pegar minha mala-menir, e aproveitei para pegar novas informações. O staff não sabia das notícias quanto à Gare du Nord, e me indicaram o metrô, daí eu expliquei o que estava acontecendo e eles me sugeriram um ônibus. Fiquei na dúvida entre o ônibus e um taxi, mas eles me convenceram de que eles demoravam o mesmo tempo pra chegar lá, com a vantagem do ônibus ter faixa exclusiva (respeitada, diga-se de passagem), o que era bom caso o trânsito estivesse ruim.
E o trânsito estava ruim, muito ruim. Ao invés dos 20 minutos prometidos pelo pessoal do hotel, demorei 40. Além disso, o ônibus estava lotadíssimo, o que é muito ruim para alguém com uma mala grande e pesada como a minha. Fora o calor e uma francesa que não parava de reclamar e de dizer que ia passar mal.
O interessante dos ônibus de Paris é que eles têm hora marcada. Tanto nos pontos quanto dentro do ônibus, onde se vê um letreiro com a próxima parada e quanto tempo falta para chegar nela. Dessa forma, pude apreciar melhor o nervosismo de ver a hora passar e o tempo de chegada a Gare du Nord não mudava! Comecei a ficar ansiosa, as pessoas a minha volta passaram a perguntar se eu ia pegar o trem (com uma mala daquelas é meio óbvio, né?). Daí começaram a perguntar que horas era o meu trem, 20:25h eu respondi. Então aconteceu algo muito engraçado, as pessoas começaram a se dividir e a discutir a minha situação, uma parte achava que eu ia chegar a tempo enquanto outra parte retrucava e dizia que isso seria impossível. Foi emocionante... até que uma jovem se virou pra mim e perguntou se eu conhecia a estação, eu disse que não, ela pediu para ver minha passagem e disse que me ajudaria a chegar na plataforma. Chegando na estação saímos juntas do ônibus, com as pessoas desejando boa sorte, e voamos escada abaixo com a minha mala (que nesse momento resolveu arrebentar a alça maior), e com a ajuda de mais um homem, descemos correndo e eu a segui esbaforida até a plataforma. O trem ainda estava lá!
Eu a abracei e beijei no rosto, dizendo que ela era um anjo que me tinha salvado a vida, peguei minha mala e fui pro trem, cheguei na porta e chequei de novo os números. Estavam errados. Aquele não era o meu trem.
Nervosa, fui perguntar para um funcionário o que estava acontecendo, e ele me disse que o meu trem estava atrasado, e que eu acompanhasse as informações no quadro de trens. Fui checar o quadro e aí fiquei mais nervosa ainda, num quadro com mais de 20 trens, o meu não estava lá! Comecei a falar comigo mesma em voz alta (a essa altura estava falando sozinha em francês) e alguém do meu lado disse: claro que seu trem não está lá, estão todos atrasados, olhe os horários! Eu parei para prestar atenção nos horários dos trens que estavam nos quadros: todos estavam mais de 2h atrasados. O meu simplesmente ainda não tinha aparecido, e pelo visto, ainda ia demorar muito.
Pelo menos fiquei mais tranquila, atrasado é melhor do que perdido. E eu tinha uma nova missão, achar a Janaína. Resolvi que ficar em frente à plataforma marcada nos nossos bilhetes era a melhor solução possível, pois a probabilidade dela ter chegado na estação antes de mim era mínima, então ela estava realmente atrasada e certamente iria direto para a plataforma. Bingo! 20 minutos depois ela chega, botando os bofes pra fora e nervosíssima, achando que tinha perdido o trem. Depois de tudo explicado, e mais calmas, fomos colocar as fofocas em dia, enquanto esperávamos nossa vez de embarcar. Chegando a nossa vez, entramos no nosso vagão e nos acomodamos, trem chique é outra coisa... parecia que estávamos num avião, foi servido até um jantar... nada como pegar uma companhia boa... o único problema é o preço, foi um dos trens mais caros que peguei na viagem.
Chegamos em Bruxelas com 2:30h de atraso, era quase meia noite, e a pobre Janaína ainda tinha que pegar um trem para Brugges. A estação estava quase fechando, o que significa que não tínhamos muito tempo, nem muitas opções de trem para ela. Com a ajuda da Janete e do marido dela, Manuel, ela conseguiu embarcar.
Depois fomos para o carro. Eu crente que finalmente estava indo para algum lugar descansar depois de toda essa bagunça, fui surpresa pela animação da Janete e do Manuel, eles me levaram para um city tour noturno: visitamos o Palais Royal, o Atomium e o museu de arte antiga e de arte moderna. Só para vê-los iluminados por fora. Só na Europa mesmo para se fazer um city tour desse gênero...
Depois disso, finalmente fomos para casa, onde a Janete ainda teve energia para me apresentar o apartamento e me explicou porque existe a diferença em francês entre "salle de bains" e lavabo. É simples, a sala de banhos não tem privada, e o lavabo não tem chuveiro ou banheira. Coisa de europeu mesmo.
E finalmente pude dormir... o dia seguinte também prometia!!
Acordei cedíssimo por conta da hora do trem e tive que deixar para tomar o café da manhã na estação. Para enganar a fome comprei um croissant e um café para comer no trem, o que dava para distrair o estômago por algum tempo, pelo menos durante a minha leitura histórica sobre Rouen, para ter uma idéia do que iria ver e o que seria mais interessante de visitar. A vista do trem ajudou bastante na leitura, porque não é nada interessante ou bonita. O trem vai seguindo o rio Sena, e tudo tem cara ou de subúrbio ou de zona industrial.
Enquanto fazia minha leitura e estudava o mapa da cidade percebi que ele era limitado apenas ao centro histórico da cidade, portanto não tinha a estação de trem. Fiquei preocupada, como iria me achar quando chegasse lá? Quando o trem chegou, antes de resolver meu problema de localização dei um pulinho no banheiro, porque no balanço do trem não me parecia uma boa idéia atender a esse chamado da natureza, e, como sempre, tive que pagar os €0,40 para usá-lo.
Vale fazer uma pequena observação sobre os banheiros que encontrei pela Europa: a não ser que sejam dentro de estabelecimentos, ou eles são pagos ou são inutilizáveis. Os pagos costumam ser maravilhosos, nunca faltando água ou papel e sempre muito limpos. Os gratuitos são... bom... imagine um banheiro daqueles bem ruins de posto de gasolina, só que sem as baratas (elas devem ter morrido congeladas no inverno) e certamente sem papel. Como o preço para usar um banheiro nunca é exorbitante, vale muito a pena pagar uns centavinhos pelo conforto.
Fui então ao balcão de informações descobrir onde ficava a estação no meu mapa: saindo de lá era só seguir a Rue Joanne D'Arc (que aparentemente corta toda a cidade) e virar na rua do Gros Horloge (grande relógio) para chegar no Office de Turisme. Como essa rua tinha no meu mapa fiquei mais tranqüila e comecei a caminhada. Eu havia programado um bom walking tour para esse dia e ele partia da catedral, em frente ao Office, então me segurei para não tirar fotos até chegar lá, para não ficar com fotos repetidas no fim do dia, foi uma tarefa muito difícil, mas eu consegui! No meio do caminho achei uma loja de fotografia aberta e aproveitei para parar e esvaziar o meu chip, afinal ainda não estava nem no meio da viagem e um dos meus 2 chips de 2 gigas já estava no final. Foi o dvd mais caro que eu já paguei na minha vida, mas como estava precisando e não sabia se seria fácil encontrar outra loja paguei assim mesmo. O chato mesmo nem foi isso, foi que eles ficaram com o meu adaptador e por conta disso eu tive que me virar com um chip mais antigo, de apenas 176 megas, que ainda por cima, para o meu azar, estava com umas 30 fotos dentro que eu havia me esquecido de tirar nem sei há quanto tempo. Fazer o quê? Hoje iria economizar foto. O que é uma tarefa muito difícil, apesar das casas medievais em madeira de Rouen serem muito parecidas (do meu pobre conhecimento arquitetônico são iguais mesmo) com as de Rennes e do Mont Saint-Michel (apesar desse último ter um charme indescritível que faz até a grama parecer especial). Saindo da loja dei de cara com o tal grande relógio e fiquei embasbacada... ele é lindo de morrer... mas me segurei firme e fui em frente, pois mais tarde eu o veria com calma no meu walking tour. Chegando na praça da Catedral você só consegue pensar em duas coisas: o estilo gótico é mesmo maravilhoso e... Monet. Sim, porque ele pintou uma famosa série de quadros dessa catedral nas diversas horas do dia para captar a diferença da luz do sol, e, adivinha: ele usou como estúdio para essas pinturas um dos quartos do prédio onde hoje fica o ofício de turismo de Rouen. Na época o tal quarto era uma loja de lingerie feminina, mas ele convenceu ($$$) o dono que ele queria mesmo era pintar a catedral e não ver as clientes, que ele jurou não incomodar. Entrei no Office de Turisme para pegar um aparelho de audio-guide, e passei um papo nos atendentes que só queriam me ceder o aparelho se eu deixasse meu passaporte. Tive que explicar que eu não podia deixar meu documento lá porque era o único que eu tinha comigo, mas que o meu trem saía razoavelmente cedo e por isso eles não precisavam se preocupar, eu devolveria o bichinho. Nada como estar na Europa, eles acreditaram em mim e me liberaram.
Outro comentário importante: para quem for a Rouen alugue um audio-guide, que é muito bom e muito prático! Você vai andando pela cidade carregando ele e em alguns pontos ele tem uma gravação explicando tudo, essa gravação você acessa apertando o número correspondente ao lugar onde você está. Não precisa seguir ordem nenhuma, é só olhar num mapinha que vem com o aparelho o número certinho e pronto!
Fui então para a frente da catedral esperar um "petit train", que eu queria andar antes de visitar a cidade por mim mesma. A primeira saída estava marcada para 10h, mas eu fiquei esperando até 10:10h sem nenhum sinal dele (sim, existem atrasos na França, afinal eles não são ingleses), e acabei por desistir desse passeio e resolvi começar minha caminhada auto-audio-guiada, começando obviamente pela catedral, que é mesmo de tirar o fôlego. Sua construção, pelo menos da parte gótica, começou em 1145 pela torre norte (torre Saint-Romain), a outra torre chamada "tour de beurre" (torre de manteiga) foi contruída 300 anos depois e seu nome é de origem controversa (não se sabe se é por conta da cor amarelada da sua pedra ou se é porque ela foi construída com dinheiro das indulgências daqueles que pecavam comendo manteiga - isso foi considerado pecado durante algum tempo em Rouen, aparentemente porque a manteiga ficou em falta). A nave ainda contem alguns elementos da antiga igreja romana e possui 3 gisants muito curiosos (para os desinformados são estátuas deitadas representando o morto cujo túmulo fica logo embaixo da estátua): um do Ricardo Coração de Leão, que, dizem, contem o seu coração; do grande herói francês de origem viking Rollon, que está vazia; e de Henri le Jeune, irmão de Ricardo e de Guillaume Ier de Normandie, filho de Rollon. Dentro da catedral há ainda uma bela capela dedicada a Joana d'Arc, onde há uma linda espada, obviamente não original. Saí da catedral por uma porta lateral para entrar na Rue Saint Romain, uma das mais antigas da cidade, repleta de casas dos séculos XIII, XIV, XV, XVI, XVII, XVIII e XIX. Nessa rua se encontra o atelier de Ferdinand Marrou importante artista do início do século XX, trabalhando no grande relógio e também na catedral, e mais um monte de casas belíssimas... se você bobear não vê mais nada na cidade. Essa rua dá numa igreja linda, chamada Église Saint-Maclou, que infelizmente estava fechada. Perto dessa igreja fica um dos lugares mais exóticos que já visitei, e que foi difícil de achar, porque sua entrada é muito escondida: o aître Saint-Maclou. Hoje ele abriga a Escola de Belas Artes, mas na verdade é um antigo cemitério usado durante a peste negra de 1348. Mais tarde, no século XVI foram construídas as galerias que ficam em torno do atual jardim para servirem de ossuário, e a Escola hoje fica nessas galerias. Por conta de sua história e propósito sua decoração é, pode-se considerar, macabra, com muitos ossos e crânios, com figuras que fazem a chamada dança macabra (entre as figuras pode-se ver a própria morte, homens, mulheres, doentes, crianças e até mesmo padres e bispos, todos em forma de esqueletos), uma alegoria de origem medieval que mostra a morte liderando as pessoas em todas as fases da vida para a cova. Bem apropriado não? Numa das paredes há uma espécie de mostruário com um gato mumificado que foi achado numa das paredes da Escola... apesar disso tudo, o aître é um lugar muito agradável e bonito. Visita imperdível. Saindo do aître fui para a rua Damiette, que também é linda, e cuja entrada fica de frente para a fonte com os meninos mijões da igreja Saint-Maclou, e na esquina tem a casa mais torta que eu já vi na vida. Dá até medo de passar do lado dela, porque parece que ela vai cair a qualquer momento. Essa bela rua é cheia de cafés charmosos, que me fizeram lembrar da minha fome, afinal eu só tinha comido um croissant e um copinho de café, mas ainda era muito cedo e estavam todos fechados. Resolvi continuar mais um pouco, e se eu percebesse que os restaurantes estavam escasseando eu iria voltar. A rue Damiette leva a outra rua muito linda, a Rue Eau de Robec , um antigo rio muito importante para a cidade (um dos braços do Sena que corta Rouen), que depois de uma reforma higiênica foi tornado subterrâneo, mas deixaram um filete d'água na superfície, com muitas mini-pontes para marcar onde ele passava. Hoje é uma linda rua limpa e iluminada, com uma mistura bizarra muito comum na Europa de novo e antigo, o que é de se esperar de uma cidade que tem muitos prédios cujo século de construção pode variar até conforme o andar do qual você está falando. Nessa hora resolvi que não dava mais, eu precisava comer urgentemente. Voltei a rua Damiette e fiquei esperando o restaurante que eu escolhi abrir. Foi muito em conta, por 15 euros eu comi: uma entrada de moluscos gratinados na manteiga com alho (os deuses do Olimpo ficariam com inveja desse prato); presunto ao vinho porto com batata frita; pêra cozida com sorvete de creme e calda de chocolate; e o preço ainda incluía uma cerveja. Comi devagar e até não agüentar mais. Mandando a fome pro aître saint-maclou, pude continuar meu tour. Fui andando até a Abbayae de Saint-Ouen, uma igreja gótica também, mas que ainda estava fechada. O que era bom, porque assim eu tive tempo para apreciar os belíssimos jardins a sua volta, com uma grama no seu auge do verde e cheia de flores (sim a grama européia dá flor!). Assim como no campo de marte em Paris, aqui as pessoas vão passar suas horas livres sentadas na grama, ao sol, comendo, conversando, fumando e lendo. Aproveitei para dar uma volta, sentir o sol, ver a bela paisagem e os restos de alguma construção anterior (provavelmente os resquícios do monastério beneditino). Aproveitei também para lembrar que foi aqui, no cemitério dessa abadia, que Joana D'Arc foi submetida à prova de abjuração em 1431, e no mesmo lugar, em 1456 ela foi reabilitada. História muito trágica e heróica a dessa virgem. A igreja finalmente abriu, 15 minutos mais tarde do que o indicado na porta (mais um atraso para contabilizar na viagem... ainda seriam muitos), mas valeu a pena esperar. É a igreja gótica mais iluminada que eu já vi, apesar de ser menor que a catedral ela aparenta ser maior, porque nos espaços onde deveria have capelas, aqui tudo faz parte da nave, sem divisórias, dando o efeito de amplitude, que fica ainda mais intenso por conta da luz e dos seus pilares mais finos que o comum. Enfim, é uma jóia, que náo dá para apreciar por completo, pois a parte das capelas em torno do altar são proibidas ao público. Uma pena. Mas vale mesmo assim. Saindo de lá, fui até a Place Saint-Amand onde há um busto de Monet e também é uma gracinha, cheia daquelas casas antigas... incrível como não dá para cansar dessas construções! Fui então ver um tipo de construção que eu não sabia que existia: um prédio gótico de uso civil (eu achava que eram apenas igrejas): o Parlement. Ele realmente parece uma igreja... não tem como dissociar... A construção fica num antigo bairro judeu da cidade, que foi demolido e o prédio foi construído por cima de um monumento judeu, o único com vestígios na Europa (por mais que eu não tenha conseguido ver nada lá, sei que estão em algum lugar). Hoje é um bairro com muito comércio. No caminho para o meu próximo ponto de visita, aproveitei para pegar meu chip e o dvd com as fotos, foi caro, mas pelo menos o trabalho era mesmo muito chique, com uma capinha muito bonita da loja. Pude seguir então para o local onde Joana D'Arc foi queimada: o Grand Marché. Era o local mais animado da antiga cidade medieval: o mercado! Não foi a toa que escolheram essa praça para queimar Joana viva. Hoje o mercado fica dentro de uma construção muito modernosa, de telhado meio torto e muito estiloso. No local onde Joana foi queimada há uma cruz imensa, que marca a altura da fogueira, e um pequeno sítio arqueológico, com tudo o que restou da fogueira: o pilori, a pira e o muro que separava a platéia do fogo. Logo atrás desse sítio e da cruz, há uma igreja construída em 1979 com 3 finalidades: reverenciar a santa, memorial civil para celebrar a heroína e um lugar para conservar os vitrais da antiga igreja Saint-Vicent, destruída em 1944. A igreja, mesmo sendo moderna, é uma das mais bonitas que já vi, e a única em forma de arena. Foi onde acendi minha primeira vela na viagem, porque não dá pra resistir. Primeiro, ela é emocionantemente bonita, depois a história de Joana D'Arc me toca profundamente. Saindo da igreja, fui ver o outro lado da praça, que é bem mais leve! Tem um belo gramado, uma fonte numa das laterais da igreja e resquícios de uma outra igreja bem mais antiga, onde o famoso escritor Corneille foi batizado. Além disso tudo, a praça é rodeada de restaurantes e lojas de souvenirs... o que é muito conveniente tanto para os vendedores quanto para os turistas. Para completar, é na praça que fica o Museu Joana D'Arc e, bem perto, o Museu Corneille. Como eu ainda queria visitar o Grande Relógio, resolvi que era melhor deixar os museus para mais tarde, caso desse tempo. Acabei não indo a nenhum, mas fica como desculpa para voltar nessa cidade maravilhosa. Continuei andando no meu walking tour, e fui para a Place de la Pucelle, a praça da virgem, em homenagem à Joana D'Arc, onde antigamente tinha uma fonte lindíssima (eu vi uma miniatura mais tarde para atestar esse fato), porém, por conta da homenagem, era confundida como o local onde ela foi queimada. Para acabar com a confusão, resolveram ser muito práticos: eles tiraram a fonte. Mas a praça ainda vale a visita, ainda mais na primavera, pois os canteiros ficam repletos de flores de todas as cores, e lá só tem prédios antigos lindíssimos! O mais famoso deles, o Hôtel de Bour Theroulde, infelizmente estava em obras... mais uma razão para visitar novamente Roen no futuro! Finalmente me dirigi ao famoso relógio! Que não só é belíssimo, como é enorme! E dá pra ver as horas à distância, o que é muito facilitado pelo fato do relógio só ter um ponteiro... mas também, isso já é fantástico se pensarmos na época em que ele foi construído: século XIV!!! E além de mostrar as horas, ainda é um relógio astronômico, pois mostra a fase da lua e o dia da semana! Para caber um relógio desse tamanho, foi necessário colocá-lo numa espécie de arco entre duas torres, sendo que uma delas contem os sinos que marcam as horas, e a construção toda é belíssima, cheia de detalhes que remetem aos símbolos da cidade e do catolicismo. Numa das torres ainda tem uma fonte muito simpática, feita em homenagem ao Ludovico XV. Depois de me satisfazer com as fotos externas, paguei a entrada e fui conhecer o relógio por dentro. Você entra por uma das torres, que hoje abriga um museu muito interessante, que você visita com um audio-guia (já vem incluído no preço da entrada, afinal o espaço é limitado para se manter guias e grandes placas explicativas). O museu fica na antiga casa do "relojoeiro", isto é, do responsável por manter o relógio funcionando. É uma boa aula de história, pois eu não sabia que antigamente não era qualquer cidade nem qualquer um que podia ter um relógio astronômico, e caso tivesse, ainda não era qualquer um que podia fazê-lo soar as horas! Aparentemente havia uma regra bastante rígida sobre a importância das cidades que dizia qual podia e qual não podia ter um relógio... Mas esse Gros Horloge em específico é um dos mais antigos da Europa, e é o mais antigo que ainda está em funcionamento! Apesar de ser construído no século XIV, os símbolos utilizados para mostrar os dias da semana são os deuses gregos que deram origem aos nomes de cada dia! Como você só consegue ver um dia de cada vez no relógio, há uma réplica para os visitantes admirarem dentro do museu de todos os dias. Além disso, o museu inclui toda a máquina desse mostro (pois depois de você ver o tamanho da máquina se chega a conclusão que só pode ser um mostro), e os sinos! Que ,obviamente, são precedidos de um aviso enorme de "não chegue perto caso estejam tocando para você não ficar surdo", que ficam no ponto mais alto da torre-museu. Como brinde você pode visitar a parte externa da torre para uma vista alucinante da cidade. Alucinante mesmo! O espaço para você andar é tão diminuto que eu fiquei muito feliz de ter terminado a bateria da minha máquina e ela não ter registrado todos os palavrões que eu disse olhando para aquela cidade maravilhosa, mas que daquele jeito me fazia me borrar de medo. Mesmo assim eu dei uma volta completa na torre! Só para dizer que eu fiz! Saindo da torre maldita, me sentei um pouco ao lado dos sinos para me acalmar, e então saí do museu, já recomposta, e voltei à praça da Catedral para finalmente devolver meu audio-guide. Eles dizem que dá pra fazer esse walking tour em 3 horas, mas isso é uma grande balela! Ainda mais se você for andando com calma e tirando fotos das coisas interessantes, que são muito abundantes! Devolvido o aparelhinho, vi o maldito trenzinho que eu queria ter pegado no início do dia. Como eu ainda tinha um pouco mais de uma hora para gastar, resolvi pegá-lo. O que foi um erro. Esses trenzinhos são muito mais legais como uma primeira vista da cidade mesmo, depois que eu já tinha visto tudo, e ainda por cima com comentários, aquele passeio fui muito chatinho... Terminado o passeio, eu ainda tinha alguns minutos, então resolvi procurar um supermercado para comprar água antes de ir para a estação de trem. Como Murphy funciona no mundo inteiro, acabei me perdendo nessa procura, justamente numa parte da cidade que não tinha no meu mapa! Mesmo assim, como eu ainda tinha algum tempo resolvi me arriscar, o que foi bom, pois acabei por achar um supermercado! Comprei minha água pelo preço mais justo possível em euros, e de quebra ainda cheguei a tempo na estação! UFA! Apesar de eu ter pegado o trem na hora, ele chegou atrasado em Paris... mais um atraso francês na minha conta! O que me deixou muito chateada... mas depois do que me esperava no dia seguinte seria fichinha... de qualquer forma, eu ainda não sabia disso, então me dirigi ao meu hotel, passando no cyber café 24h no caminho, para arrumar a minha mala pro dia seguinte, que seria muito cheio, pois além de visitar Chartres, eu ainda pegaria um trem para Bruxelas junto com uma amiga minha que me encontraria na estação. Depois de arrumar a mala, comi uma quantidade absurda de pistaches, o que consistia no meu jantar, e fui dormir exausta. Para completar o "dia", meus pais me ligaram no meio da noite... mas eu estava tão cansada que nem me lembro o que eu disse pra eles.
Como eu estava muito cansada por conta dos dias anteriores e o meu trem para Pontorson só saía às 9 horas, acordei um pouco mais tarde do que o costume, tomei um café razoável no hotel, que era um pouco pior e um pouco mais caro do que do hotel de Paris. Mas eu não estava preocupada com isso, só conseguia pensar na visita do dia: Mont Saint Michel, um dos pontos altos da minha viagem. Cheguei um pouco mais cedo na estação de trem para decidir o que fazer com as passagens que estavam faltando comprar ou agendar: Rouen, no dia seguinte, e Vézelay. Por conta dos preços de ida e volta, que eu consultei numa máquina (mas que não podia comprar porque ela só aceitava cartão com chip), acabei decidindo por comprar as passagens de ida e volta de Rouen e deixar Vézelay por conta do Eurail Pass, já que não dava para reservar lugar nesse trem. Deve ter sido por causa da mistura de sono com impaciência mais uma pitada de nervosismo (porque o caixa que vendia as passagens só abria 5 minutos antes da hora do meu trem) que não fiz a escolha mais sábia. Teria sido mais barato do outro jeito. Paciência. Faz parte. Entrei no trem e em pouco tempo eu estava chegando em Pontorson, que é a cidade mais próxima do Mont Saint Michel, que na verdade é uma ilha, logo o trem não chega até lá. A idéia era pegar um ônibus, cuja tabela de horários eu encontrei na Internet, do lado de fora da estação que me levaria até a ilha e no final do dia me traria de volta. Como tinham me avisado que seria muito provável, estava chovendo. E logo descobri que Pontorson é uma cidade no meio do nada, ela é tão pequena que é difícil chamar a estação de trem de estação. E não tem nada em volta além de casas e algum comércio de primeiras necessidades. Por conta disso, meu plano de deixar minha mochila num armário na estação foi por água abaixo, junto com a chuva que não parava de cair. Eu não tinha muito tempo para me lamentar ou ficar procurando soluções, porque o tempo entre a chegada do trem e o meu ônibus era de 10 minutos, então o mais importante era encontrar o ponto do dito cujo fantasiada de tartaruga mesmo. Se eu o perdesse teria que aguardar até depois do almoço, o que não era uma boa idéia. Do lado de fora da estação encontrei um microônibus e um cara enorme de gordo do lado, fui perguntar pela condução até o Mont Saint Michel, e era aquilo mesmo, sem número ou indicação na frente mesmo. Depois notei que tinha uma pequena folha de papel que indicava a direção no vidro dianteiro que mal dava para ler. De qualquer forma, aquele senhor se mostrou muito simpático, começou a me dar dicas, falando dos horários para voltar e que o tempo normalmente era ruim daquele jeito mesmo. Inclusive, ele achava que estava fazendo um dia muito ameno, nem estava chovendo tanto e a temperatura estava agradável (eu estava quase congelando!). No final acabou me perguntado de que região eu era. Ele achou que eu era francesa, veja só! Respondi que era brasileira, e ele ficou impressionado, seu francês é muito bom! Partimos em direção à magia do Mont Saint Michel, e na verdade essa é uma viagem muito curta, chegamos lá em uns 15 minutos. Mas vou te contar, uma das coisas mais mágicas do mundo é estar na primeira fila de um ônibus daquele, olhando em direção ao mar, cheio de brumas e vir surgindo devagarzinho o Mont Saint Michel. É do jeito que eu imaginava que seria a cena de Morgana levando Artur para Avalon, com a ilha surgindo no meio da neblina. Lindo. De longe aquela ilha já te conquista e te deixa de boca aberta. Fiquei emocionada. Fui deixada na entrada da ilha, que se manteve inteiramente medieval, de forma que nenhum veículo pode passar e a entrada é igual a de um castelo, com direito a ponte elevadiça e tudo o mais. Por conta da chuva fui antes de mais nada para o Office de Turisme, que fica bem no início da cidade, antes mesmo da ponte, para lá comprar um livreto explicativo e conseguir um mapa mais detalhado e que não ficasse manchado com a chuva. Mais detalhado eles não tinham, e depois entendi o porquê (não tem o que detalhar! É tudo minúsculo mesmo!), mas pelo menos ele continuaria legível com umas gotinhas. Saquei meu poncho do Astérix da mochila e o vesti, deixando a máquina fotográfica bem protegida debaixo dele. Estava pronta para começar a andar! Aliás, andar no Mont Saint Michel é muito difícil. É tudo tão lindo, e tão antigo, que parece que você entrou numa máquina do tempo mesmo! A cada passo que você dá a vontade de parar e ficar embasbacado é quase incontrolável. Você acaba andando a passo de tartaruga (muito apropriado no meu caso) com o queixo caído. Tudo, absolutamente tudo a sua volta é medieval ou mais antigo, todas as casas, janelas, portas... a rua é estreita e sinuosa, nem que um carro tentasse (apesar de ser proibido) conseguiria passar, tanto que para recolher o lixo no final do dia eles usam um veículo especial, adaptado para o tamanho da única rua, e por ter de ser pequeno, o lixeiro é obrigado a fazer muitas viagens. Tudo na cidade vive do turismo, as lojas ficam uma do lado da outra, intercaladas com restaurantes e pequenos museus particulares. As únicas coisas diferentes disso são o Office de Turisme, os correios, a polícia e a prefeitura. Tudo em casas como as demais ou instaladas nas torres de vigia das remparts (muralha medieval que circunda as cidades). A Mairie (equivalente a prefeitura), por exemplo, fica num belo arco que liga as construções internas a uma das torres. Meu plano era subir pela rua principal e descer pela muralha, o que era muito difícil de conseguir, principalmente no início quando há mais escadas ligando a rempart à rua e você fica querendo xeretar cada cantinho daquele museu a céu aberto... Fui subindo com alguma dificuldade, e entrando nas lojas que me seduziam com seus produtos bretões e celtas, até chegar a Église Paroissiale, com uma bela estátua de Joana D'Arc na entrada. É incrível como a igreja tinha poder, uma cidade tão minúscula como aquela não se contentava com o mosteiro localizado no alto do monte, precisava também de uma igreja no meio do caminho. De qualquer forma, a Église é linda, apesar de pequena, e estava em obras. Por conta da manutenção tudo estava deslocado para cima do altar, como numa casa em plena faxina. Uma coisa muito engraçada de se ver. Continuei subindo... até chegar à última casa/loja da rua e começar a escadaria que leva até a abadia do mosteiro. Haja escada! Ainda bem que você acaba subindo devagar para poder apreciar a arquitetura gótica maravilhosa do lugar. É tudo tão cheio de detalhes, com curvas, gárgulas, torres e janelas de tudo quanto é jeito que você nem sente que está subindo tanto. A entrada já é linda, ah, tudo é lindo, e, claro você tem que pagar para visitar, porque a abadia é quase toda aberta ao público, com direito a guias e audioguias (por uma taxa extra). Você visita tudo lá dentro, passando por salas e corredores labirínticos, jardins internos maravilhosos, e conhecendo todo o mosteiro. É uma coisa muito mágica. Não tem como descrever em palavras, e as fotos dão uma idéia muito pálida do que é aquele lugar. A cripta para mim foi um lugar particularmente emocionante, porque lá eu encontrei uma Madona Negra, era Notre Dame Sous Terre! Eu fiquei surpresa, porque minha viagem estava construída em cima dos lugares que eu sabia possuir esse tipo de Santa, que é um vestígio da adoração da Deusa Ísis, mas não tinha idéia que iria encontrar uma ali! E nesse caso, essa imagem ainda possui uma belíssima conotação, porque o ponto mais alto do mosteiro é uma estátua dourada de Miguel, representando a energia solar e etérea, masculina, e no ponto mais baixo fica a Madona Negra, representando as forças terrenas, uterinas e femininas, com a igreja principal bem no meio do caminho. Lindo! Simbolicamente perfeito! Saí de lá flutuando, com a cabeça em outro tempo e lugar... na verdade, muito bem localizada no tempo e no lugar, principalmente nesse último! Eu estava bebendo avidamente as imagens com os olhos. Desci pelos remparts, que estão absurdamente bem conservados, e parecem um corredor que limita a cidade, separando a parte habitável do precipício que dá no mar, com vistas lindas da baía. Pena que eu não dei sorte com os horários de mudança da maré nesse dia... elas seriam ou antes de chegar ou depois de ir embora. Mas a vista era bonita assim mesmo, principalmente através das seteiras (espécie de pequenos rasgos na muralha para os defensores usarem arcos e flechas sem o inimigo conseguir acertá-los). Ali daria para ter uma aula fantástica sobre defesa militar na idade média. Fui descendo e pensando no almoço... quando vi um restaurante de frutos do mar lotado, mas ainda tinha uma mesa vaga. Entrei e fiquei fascinada com as mesas em volta, as pessoas se fartavam de frutos do mar gigantescos! Era ali mesmo que eu comeria. Sentei e pedi o cardápio já na dúvida do que iria pedir. O garçom me entregou e foi embora. Abri com água na boca, procurando onde estavam os frutos do mar. Só tinha crepe. Como assim?, me perguntei. Chamei o senhor que estava me atendendo, eu quero o menu. Não tem mais menu. Como assim, não tem mais menu? Passou das 14h. Eu quase gritei de raiva, eram 14:05h. Todos a minha volta estavam comendo menu, e eu não podia mais pedir. Quase levantei e fui embora. Mas me segurei, pensando comigo mesma que provavelmente aconteceria a mesma coisa em qualquer outro restaurante que eu fosse, do jeito que estava com fome era melhor ficar por ali mesmo. Tristemente escolhi um crepe, e aproveitei que estava na janela que dava para o mar para me distrair e não ficar olhando para as mesas, e conseqüentemente os pratos, dos outros. O crepe tava até gostoso, mas a frustração estava estragando ele. Depois do crepe pedi um belo sorvete pra dar um ânimo no meu humor, que estava perigando ficar ruim. Mas foi só sair do restaurante e olhar novamente a vista das remparts que fiquei feliz novamente! Desci vagarosamente as rampas e escadas, absorvendo o máximo de detalhes possível, até chegar novamente na entrada da cidade. Como ainda tinha umas duas horas até o ônibus chegar, resolvi testar o meu auto-controle nas lojas. Aquilo é uma loucura, devia ser proibido. Se eu tivesse dinheiro e um modo de carregar, teria comprado quilos de bugigangas, lá tem de tudo: lembranças medievais, do Senhor dos Anéis (imitações em prata, ouro e esmalte do figurino do filme), dos Piratas do Caribe (armas principalmente), uma quantidade incontável de espadas, punhais, facas e muita, muita prata com motivos celtas/bretões. É interessante reparar pelos souvenires que a velha disputa de onde fica o Monte Saint Michel ainda é muito viva: Bretanha ou Normandia? Na dúvida, tem souvenires dos dois! E pra coroar isso tudo ainda tem o artesanato de Quimper, que uma louça linda de morrer... só que é tão cara que custa além dos olhos da cara, mais um braço e uma perna. Numa das lojas aconteceu um fato engraçado, como eu estava com o meu poncho uma das vendedoras veio me sacanear: e aí, foi no Parque Astérix? E, deixe-me adivinhar, estava chovendo, né? Que sorte a sua, hein? Em outra loja vi uma vendedora japonesa, que estava lá só para atender os japoneses, é claro. São tantos que eles estão contratando vendedores especializados! No final das contas, me surpreendi: comprei só 2 pares de brincos, um anel, um pin para minha coleção (que viria a fazer sucesso durante a viagem) e um gato de pedra com motivos celtas. Não ficou pesado, nem na mochila nem no bolso, por isso acredito que meu teste de auto-controle foi um sucesso! Depois de umas duas voltas pelas lojas, olhei pro relógio e faltava uns 10 minutos pro ônibus chegar. Resolvi esperar por ele sentada, pois já estava cansada, e nunca vi um ônibus ser tão pontual. E, claro, era o mesmo motorista. Ainda tive que esperar um pouco pelo trem na estação absolutamente deserta e quando ele chegou, escolhi um lugar longe de todos e fui dormindo até Rennes, onde devia fazer uma conexão. Quando o trem para Paris chegou, fui procurar minha poltrona, mas ela estava ocupada. Achei estranho e fui conversar com a garota que estava sentada ali, que me explicou que estava numa excursão com uns amigos e perguntou se eu não me incomodava. Respondi que não, que só não queria ficar mudando de poltrona o tempo todo, então queria saber onde era o lugar dela para trocarmos. Acabou sendo tudo ótimo, pois fiquei longe da bagunça da excursão, podendo tirar mais uma soneca, e depois comer o meu jantar em paz. Ah, sim, por conta da hora resolvi jantar no trem! Minha primeira experiência gastronômica sobre os trilhos! É bem interessante o esquema, tem um vagão/bar que vende pequenas refeições: sanduíches, saladas, iogurte e alguns pratos quentes pequenos, além de bebidas. Você chega lá, pede e escolhe se quer comer de pé numa bancada ali mesmo ou se leva a comida para o seu lugar, que obviamente tem uma mesinha até bem espaçosa. Eu escolhi minha poltrona, pois não agüentava mais ficar de pé. Só tem um problema: o trem balança mais do que parece, o que te obriga e tomar conta das coisas o tempo todo, principalmente das garrafas, que escorregam enlouquecidamente pela mesa e viram para tudo que é lado. Quando faltava uns 5 minutos para chegarmos a Paris me dirigi para a porta, e já tinha um monte de gente esperando lá. Foi então que descobri que nosso trem estava atrasado, demoraria mais uns 20 minutos para chegarmos. Era o meu primeiro trem atrasado, numa longa sucessão ainda por vir. Durante a espera um francês veio puxar papo, ele estava ansioso porque tinha um vôo marcado para Madagascar e não podia se atrasar. Foi uma conversa muito esquisita, porque ele só sabia se vangloriar de que não dormia a noite, já que trabalhava como marinheiro e por isso viajaria no meio da noite, só para não dormir. Eu disse para ele que isso não fazia sentido, mas ele entendeu como um elogio. Eu desisti e o deixei falar o que quisesse, respondendo apenas com a-hã. Chegando em Paris, fiquei feliz de descobrir que o metrô ainda funcionava, o que facilitava a minha volta para o hotel. Quando cheguei lá já era mais de 11h da noite. Peguei minha mala na recepção e fui carregando-a sozinha para o caixão que funcionava como elevador. Tinha um hóspede esperando, mas que gentilmente me cedeu o lugar por conta da mala. Agradeci muito e fui na frente. Chegando no meu andar descobri que o tal hóspede na verdade era meu vizinho. Nos desejamos boa noite e eu fui conhecer meu novo quarto. Ele era pequeno, muito menor do que o anterior, que eu dividi com o Caike, mas pelo menos o telefone funcionava direito. Eu também não tinha tempo para ficar reclamando. Dei um jeito de encaixar minha mala perto da janela, e fui lavar roupa. Só que era tanta coisa para lavar que quando deu meia-noite e meia o meu vizinho tão simpático veio reclamar do barulho. Pedi desculpas e deixei para lavar o resto no dia seguinte, se sobrasse tempo.
Acordei cedo, com o Caike saindo do quarto para pegar o translado para o aeroporto às 4:30h da manhã. Depois que ele foi embora não consegui mais dormir. Agora a minha viagem sozinha estava começando e o nervosismo bateu de verdade. Um monte de coisas que as pessoas tinham me perguntado sobre viajar sozinha estavam me atormentando... resolvi que era melhor tomar um banho bem quente, deixar tudo pronto e cochilar até a hora de sair. Acordei o mais tarde possível, deixei a mala gigante e a sobra do vinho no saguão do hotel mesmo, e levei o café da manhã comigo para comer no trem, que saía às 8:05h e levava pouco mais de 2h para chegar em Rennes. A idéia era dormir em Rennes nesse dia, no dia seguinte ir pro Mont Saint Michel e voltar a Paris à noite, de forma que uma mochila com uma muda de roupa seria o suficiente, o resto me esperaria no hotel, onde eu ficaria nas 2 noites seguintes, até a próxima viagem de longa distância. Tudo resolvido, peguei o metrô e fui para a Gare Montparnasse. Como era a minha primeira viagem, perdi as setas dentro do metrô que levavam direto para a estação, e acabei saindo no meio da rua deserta. Olhei em volta e vi uma placa que indicava o caminho para a estação. Comecei a andar naquela direção, mas meu instinto estava afiado e eu senti que tinha algo errado. Vi um gari e resolvi perguntar, e ele me deu outra direção. Resolvi confiar no parisiense laranja. Ele estava certo e acabei encontrando a estação, que é enorme! Tem diversos terminais, cada um para determinadas cidades... procurei por Rennes e lá estava o meu terminal. Por precaução eu estava com tempo sobrando e me sentei para esperar o trem chegar. Quando faltavam apenas 15 minutos desci para minha plataforma para xeretar, porque me intrigava saber como achar o meu vagão no pouco tempo que o trem ficaria na estação. Logo percebi que na plataforma tinha um quadro com um trem iluminado e cheio de números, cheguei mais perto e vi que lá tinha o trem com os vagões e eles ficavam localizados nos seus respectivos "repères", uma espécie de subdivisão da plataforma justamente para facilitar a vida dos passageiros. Achei fantástico! Fui para o meu "repère" e na hora exata o trem chegou. Eles são pontuais mesmo quando não se atrasam, impressionante. Subi e fui para a minha poltrona na primeira classe, que parecia mais confortável que a da segunda classe que eu vi de passagem no outro vagão. Sentei e comecei a tomar o meu café: pequenos sanduíches de queijo fortíssimo, que deixaram a minha mochila fedida quase ao insuportável. A vista do trem do caminho para a Bretanha é belíssima, e muito parecida com a do avião, com muito verde, pequenas fazendas, aqueles cata-ventos enormes para captar energia eólica e micro cidades, daquelas que eu aprendi na Aliança Francesa que são abundantes na França, com apenas umas duas dúzias de casas e uma igreja, normalmente desproporcional ao tamanho do lugar. Entre uma micro cidade e outra, aproveitei para dar pequenos cochilos, até que anunciaram a estação final: Rennes. Eu estava munida de um pequeno mapa tirado do site do ofício de turismo da cidade, que tinha algumas ruas do centro histórico e a localização da estação de trem. A primeira coisa que fiz foi tentar arranjar um mapa melhor na estação, no que não dei muita sorte, porque se o meu mapa era ruim de ler, aquela xerox que me deram era muito pior. Mesmo assim fiquei quieta ao recebê-lo e aproveitei para perguntar onde ficava o meu hotel, bem em frente à estação foi a resposta. Animada, saí e fui à procura! Não achei o hotel na praça onde ele devia ficar... achei estranho, como o rapaz na estação sabia onde ele ficava, eu tinha certeza de que o hotel existia. Entrei numa rua e comecei a procurar... até que me convenci de que não era a melhor tática a adotar. Voltei pra praça decidida a procurar de novo. Vi um hotel com um nome parecido com o meu, mas era diferente. Resolvi entrar e perguntar. Era ali mesmo. Não entendi nada, como um hotel pode ter um nome na Internet e outro na fachada? Mas eu não ia ter essa discussão filosófica com o recepcionista. Deixei a mochila no quarto e fui com o meu casaco/mochila bater perna. Mas antes tive que fazer uma parada estratégica no banheiro, porque meu intestino nunca tinha absorvido tantos lactobacilos em tão pouco tempo... era o efeito colateral dos queijos franceses. Saindo do hotel aproveitei para no caminho pegar um mapa decente na recepção! Fui em direção ao centro histórico da cidade e fiquei meio desanimada, Rennes tinha cara de subúrbio moderno. Nada de realmente interessante, com ruas e avenidas largas para uma cidade medieval. A Rue de Janvier, que segundo o meu mapa, dava no centro, é cheia de lojas bem novas e mais sofisticadas. Entrando na Rue Toullier, a primeira do meu circuito, me encontrei no verdadeiro centro histórico, e aí sim Rennes me conquistou com suas casas de madeira, construídas dessa forma desde o século XIV até o XIX. A única coisa que logo ficou evidente, e confesso que me deixou chateada, é que estava tudo, absolutamente tudo, fechado. Era domingo, e até os restaurantes menores não abriram. Aquilo parecia mais uma cidade fantasma, com pouquíssimas pessoas na rua. Uma desolação, ainda mais para o meu primeiro dia sozinha. Para elevar o espírito, entrei na primeira igreja do meu circuito, Église de Toussaints (Todos os Santos), que estava em plena missa. Para não atrapalhar as pessoas, dei uma volta pela nave bem discretamente, evitando as capelas próximas do altar, e tirei apenas uma foto de uma estátua no fundo, perto da porta principal, para não incomodar ninguém. Confesso que depois de tudo o que eu havia visto em Paris, essa igreja não me impressionou. De lá segui por outras ruas estreitas e tortuosas, todas de pedra, uma mais curiosa que a outra, até chegar no limite do centro histórico, onde há um templo protestante, e o culto tinha acabado de terminar e as pessoas estavam saindo. Continuei pelo meu circuito e passei em frente ao mercado popular, que estava vazio, com muita coisa fechada, e a pequena parcela de vendedores que estavam trabalhando em nada se diferenciavam daqueles da Cobal do Humaitá. Continuei caminhando até a Place de la République, essa sim digna de nota. Nela fica o Palais du Commerce, uma construção muito grande e bonita do século XIX, com umas arvores plantadas em caixas quadradas na frente, que são muito comuns na Europa (desconfio que são laranjeiras, mas não tenho certeza, pois nos castelos elas são plantadas assim). De lá entrei no mundo do Senhor dos Anéis, na Rue de Rohan (até tirei uma foto para comprovar!), que é onde começa mesmo a cidade velha, que fica no centro do centro histórico, onde você volta a andar por ruas estreitas, apenas com casas de madeira e chão de pedra... uma coisinha linda! Pena que a praça do Calvário estava em obras... mas logo se percebe que sempre tem algo em obras nos países desenvolvidos... lá elas nunca terminam, pois sempre há algo para melhorar e eles não deixam para depois, além de que é na primavera que se consertam os estragos provocados pelo inverno. De lá peguei uma outra rua repleta de charme, uma das mais bonitas de Rennes, a Rue de Saint Yves, onde fica a antiga Chapelle Saint Yves, que hoje é o ofício de turismo da cidade. A pobre capela está tão destruída e desfigurada que a visita vale mais pelas informações turísticas do que pela visita. Aliás, essa área toda é uma coisa fora de série, depois dessa rua tem mais uma que também é linda: Rue des Dames, que dá na principal igreja da cidade, a Catedral de Saint Pierre, que quando eu cheguei estava fechando para o almoço, só abrindo três horas depois, num dos intervalos para almoço mais longos que já vi, só na Espanha é pior. Eu ainda não sabia disso, mas foi muito providencial ter deixado essa igreja para visitar por último, na hora fiquei um pouco chateada, mas ainda tinha muita coisa para ver e por isso segui em frente, sem dar tempo para lamentações. De lá, segundo o meu mapa, tinha as Portes Mordelaises para visitar. Eu não tinha idéia do que se tratava, imaginei arcos medievais para se passar no meio ou numa praça. Continuei andando e continuei sem saber o que eram essas portas, tudo o que vi foi um castelo medieval com um belíssimo jardim florido na frente. Hoje, procurando no Google descobri que o tal castelo é a Portes Mordelaises... que nome mais inapropriado. Perto do castelo fica uma praça simpática, mas com muita cara de Paris do interior, a Place du Bas de Lice, que é sem graça se comparada com outras partes de Rennes, porém, inesperadamente, ao lado dela tem outra praça, essa sim imperdível! É a Place Saint Michel, que é um point da cidade, juntamente com a sua continuação, a Place du Champ Jacquet! São duas praças cercadas de ruas, com tudo lotado de bares e restaurantes. É engraçado ver como a Bretanha respira o passado, tentando passar uma imagem às vezes mais medieval e fantástica do que a realidade. A quantidade de pubs e restaurantes com nomes que lembram a lenda Rei Artur ou até mesmo o Senhor dos Anéis é assustadora. Chega a ser difícil encontrar um lugar com um nome "normal". Como ainda estava cedo e eu estava adiantada no meu circuito turístico, resolvi mudar o caminho e explorar para fazer hora. Entrei na Rue des Innocents (para quem gosta de Anne Rice é uma referência interessante para o Cemitério Les Innocents, que chegou a existir mesmo em Paris e... bom, isso faz parte de uma outra história que será contada mais a frente na viagem. Foi nessa área que achei uma loja que oferecia Internet! Bom, não era uma lan-house, e sim uma mercearia misturada com bar, numa casa histórica e administrada por árabes. Aliás, como tem árabe em Rennes! Os computadores, apenas 3, ficavam nos fundos, tudo muito empoeirado e com uma Internet lenta de doer. Mas eu tinha que mandar notícias para a minha mãe e buscar novidades do Caike, então me conformei e acessei rapidamente meus e-mails. Bom, rápido em termos, né? De qualquer forma, foi a Internet mais barata que vi na França, pois os vendedores marcavam eles mesmos o tempo de conexão, e como ficavam batendo papo (em árabe) o tempo todo com os fregueses árabes também, não estavam muito preocupados com o tempo que você passou no computador, contando bem menos tempo do que a realidade. O que no fundo, foi justo, dada a lerdeza da conexão e do computador em si. De lá entrei na Rue de Saint-Louis e fui para uma praça fora do meu circuito, a Place de Sainte Anne, que estava deserta. Lá tem uma igreja muito linda, a Église de Sainte Anne, que, para minha surpresa, é uma das mais bonitas de Rennes! Para meu desconforto, havia um grupo de quase bêbados sentados na escadaria, e assim que cheguei um deles foi logo avisando que a igreja estava fechada, e outro logo retrucou que não, ela estava aberta. Começou uma pequena discussão entre os dois enquanto um terceiro me aconselhou verificar pessoalmente, e, graças a deus, ela estava aberta e eu entrei rapidinho.Pra variar, a igreja é tão alta que quase chega a dar vertigem quando se olha para cima, e e toda branca por dentro. O transcepto é coberto quase até o teto de placas de agradecimento por milagres de Santa Ana, uma coisa emocionante! Saí de lá animada, e me despedi dos bêbados nas escadas, saindo um pouco mais rápido do que o normal, pois eu estava sozinha e a praça vazia, não queria arriscar... fui até a Place de Hoche, que é bem bonita também, mas sem nenhum marco importante, e entrei na Rue Saint Melaine, onde, adivinha, tem mais uma igreja chamada, adivinha de novo, Église de Saint Melaine. São coisas que eu não consigo entender, essa igreja bem mais acabada e feia, apesar de ser um monumento histórico de importante, está no circuito turístico, mas a Sainte Anne que é bem mais bonita não está. Não faz sentido pra mim... mas enfim, essa é uma igreja que vale pela sua importância como monumento histórico (afinal ela data do século XI) e pela torre que é muito bonita, de estilo romano. Por dentro, ela é austera demais, ficando bem sem graça, fora que seu estado de conservação não é dos melhores. Saindo da igreja e entrando na Rue du M. Guillandot, você vê na esquina du Rue Gambetta (aparentemente uma via bastante importante da cidade) a piscina municipal. Outra coisa de país desenvolvido: piscina pública de qualidade. A entrada tem ares de art nouveau, mas o estilo é outro que eu desconheço, e é muito bonita, com jardins nas laterais. Também não está no circuito, mas vale passar na porta para dar uma olhada. De lá peguei a Rue Saint Georges, que te leva novamente para a cidade medieval, e tem algumas das casas de madeira mais lindas da cidade, com suas vigas de madeira entalhadas lindas... muitas contando histórias de santos. Uma das que eu vi pela cidade tinha o martírio de São Sebastião, com ele amarrado numa viga enquanto na outra viga ao seu lado mostrava o arqueiro. Tudo bem pintado e bem conservado, uma beleza. No final da Saint Georges fica mais uma igreja, a Saint Germain, que infelizmente estava fechada, para meu azar ela só abre uma vez na semana, e não é aos domingos. Então segui em frente e fui até a Place du Parlement de Bretagne, que é muito bonita, com um belo jardim à frente do Parlamento, que já é por si só um espetáculo a parte, com a sua imponência, e um interessante relógio de sol no centro da fachada. Essa área é, na verdade, repleta de prédios públicos, pois bem perto fica a Place de la Mairie, que é no mínimo curiosa. Se trata de uma praça onde, obviamente, fica a prefeitura, e consiste numa praça de tamanho bastante razoável com um prédio de cada lado, sendo que os eles se encaixam um no outro, isto é, um tem a entrada saltada para fora da fachada num semi-círculo, enquanto o outro tem a fachada num semi-círculo só que para dentro. Pra variar a praça está cheia de árvores plantadas em caixas.
Pensamento aleatório, mas nem tanto: o francês é mesmo metódico, acho que eles preferem manter as pobres árvores assim não só para controlar o seu crescimento mas também para facilitar a sua locomoção de um lugar para o outro e dessa forma poder mudar os jardins a seu bel-prazer sem ter de esperar as árvores crescerem de novo.
Nesse momento cheguei a conclusão que era melhor parar para almoçar. Então peguei meu mapa, e depois de percorrer algumas ruas, voltei a Place du Champ Jacquet. Estava tudo deserto, apesar de ser plena hora do almoço, escolhi uma creperie, e finalmente descobri o que é raclette!! Imagine um crepe, só que a massa é apenas de queijo crocante, isso é uma raclette. Em outras palavras, é uma iguaria culinária! Só tem um problema, dificilmente dá pra comer mais de uma, mas também não segura a fome por muito tempo. Além disso, como rapidamente eu descobri, não segura muito o vinho. Apesar de ter tomado apenas uma taça, saí do restaurante tontinha. Por conta disso dei mais uma voltinha na Place Saint Michel até conseguir achar o caminho para a Place Rallier du Baty, que também é um point da cidade, e possui um muro do século XV que é um prolongamento de um muro ainda mais antigo, da época galo-romana. Incrível como essas coisas surgem no meio das cidades na Europa... a presença da história é quase opressiva! Segui então por mais umas ruas (R. du Clisson, R. de Mont Fort e R. du Chapitre) à cata de mais casas lindas de morrer, com suas vigas de madeira entalhas e coloridas, na verdade, é facílimo de achar essas construções em Rennes. Finalmente eu estava de volta a Église Saint-Pierre, que deve mesmo ser visitada no final, pois tão muito linda que deixa a todas as demais no chinelo. Ela parece um palácio por dentro, com uma quantidade quase incontável de pinturas nas paredes e no teto, este último é todo dividido marcando as "molduras". Muito bonita mesmo. De estilo neoclássico, essa igreja do século XIX é uma das mais novas da Bretanha, e sua colunas internas são todas de mármore amarronzado, combinando com a pouca luminosidade do local. Saindo da igreja peguei a Rue de la Monnaie, que também é cheia de casas lindas, e fui andando por um pequeno labirinto formado pelas ruas Sant Guillaume e Saint Sauveur, onde achei mais uma igreja, chamada, você só tem uma chance, Église Saint Sauveur. É incrível como Rennes tem igrejas... Enfim, entrei, e me surpreendi, por mais que ela parecesse sem graça por fora perto de todas as outras da cidade, ela é uma das mais bonitas por dentro, rivalizando com a Saint Pierre. Foi nessa igreja, na verdade, uma basílica, que algo muito entranho aconteceu. Eu estava dando a minha volta pela nave, admirando as esculturas, vitrais e a arquitetura quando uma velhinha de cabelos completamente brancos e olhos profundamente azuis chegou perto de mim e perguntou: o que você está procurando? Ela me pegou totalmente sem guarda com essa pergunta. De repente comecei a pensar, bom, essa minha viagem parecia mesmo uma procura, mas não sabia bem do quê. Eu a tinha planejado de forma que parecia uma espécie de peregrinação, mas não consegui achar uma razão ou um objetivo nisso. Como eu fiquei calada e demorei a responder que, bom, eu estava ali de turista, ela perguntou de onde eu era. Respondi que era brasileira, no que ela replicou que o meu francês era muito bom (fiquei tão feliz!) e que eu lembrava uma amiga dela que também era do Brasil, que tinha vivido em Rennes alguns anos antes de voltar para os trópicos. Nisso ela indagou se no Brasil as pessoas eram católicas, eu disse que o país era muito católico sim, o que não deixa de ser verdade, o que a deixou muito contente e ela se animou: você sabia que aqui houve um milagre? É mesmo? Sim, no século XVI Maria apareceu ali (e ela me levou para o local dentro da igreja) e falou com as crianças que estavam rezando que os ingleses estavam se aproximando, as crianças contaram para todos e por conta disso a cidade teve tempo de se preparar para o ataque, que ocorreu uma semana depois e, claro, foi rechaçado. Nisso ela perguntou se no Brasil também havia aparições de Maria, e eu lhe disse que sim, que já tinha ouvido falar de algumas, o que a deixou feliz. Fiquei meio abismada com a tal história e com o fato daquela senhora simpática estar me contando isso, assim, meio sem razão. Ela ainda me levou para um balcão ao lado da entrada e me entregou o folheto explicativo com a história da basílica (coisa muito comum na Europa, esses panfletos, e normalmente eles têm um preço simbólico de 1 ou 2 euros), eu lhe disse que estava sem dinheiro para pagar por ele, mas ela disse para não me preocupar, era um presente dela. Fiquei feliz e lhe agradeci muito, ela sorriu e perguntou o que eu tinha achado da igreja, respondi que era uma das mais bonitas da cidade, o que ela gostou de ouvir. Então saímos e ela indagou quanto tempo eu ficaria ali, lhe disse que infelizmente era só por um dia, pois eu estava rodando a França, ela ficou impressionada e perguntou aonde mais eu iria, e minha resposta a agradou muitíssimo, apesar dela achar que eu devia ver mais a Bretanha, e que tinha certeza de que eu iria adorar o Mont Saint Michel no dia seguinte. Nos despedimos ali, e eu resolvi procurar um lugar para jantar. Aquela raclette não tinha sido o suficiente. Rodei novamente todo o centro histórico, à cata de um restaurante, mas ainda estava tudo fechado, com cara de que não ia abrir mesmo, apenas um pub ou outro estava aberto, mas eu queria um prato de verdade, não beliscos. Enquanto eu dava voltas cheguei a cruzar mais algumas vezes com a senhora da igreja, que sempre sorria e dava um leve aceno. Resolvi que era melhor tentar no Av. Jean Janvier, aquela mais moderna que eu tinha visto de manhã, e dessa forma eu ainda estaria mais perto do hotel, o que era bom, pois minhas pernas estavam reclamando muito. Finalmente entrei num hotel que tinha um belo bistrô na entrada e comi uma salada simplesmente divina de peixes defumados, com um delicioso chá de caramelo (que eu tinha aprendido a apreciar no Japão) para acompanhar. Foi ótimo, comi saboreando cada pedaço enquanto tentava entender a conversa incompreensível de um grupo americano que mais pareciam rappers numa mesa próxima. Acabei desistindo e terminei aquele jantar maravilhoso. Voltei para o hotel e fui dormir cedo, estava cansadíssima e o dia seguinte seria longo, muito longo.